--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os nobres teem obrigação de saber guardar todas as conveniencias: mas, aqui, escusa a minha estimavel esposa de usar de taes constrangimentos... Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher adultera. Não lhe parece?...

--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com justiça?

--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus engenhosos corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em amigavel controversia, desejava ouvir a sua esclarecida opinião sobre a igualdade dos deveres... Parece-lhe que o adulterio é o mesmo crime da parte da mulher como da parte do homem?...

--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...

--Para quem não tem pensado no assumpto, desenvolve-o admiravelmente!... Dou á minha cara esposa sinceros emboras pelo bem que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da letradice com que ha pouco quiz honrar-me, que os maus exemplos do homem nunca podem lançar no leito nupcial um pequenino ladrão... A minha intelligente esposa comprehende-me bem, não é assim?

--Se o comprehendo, senhor, devo tambem observar-lhe que os maus exemplos podem igualmente introduzir o mesmo roubo em alheios lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno egoista.

--Dou lhe palmas, minha cara esposa! Isso é que se chama saber defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...

N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão adoptivo...

--O seu rôsto, minha boa esposa, formosissimo, mesmo quando v. exc.a se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a noticia que nos deu a criada... Muito feliz é esse snr. Arthur Soares!...

--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o sei presar como elle merece.