Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.

D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se, attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.

Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:

«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle, respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam: Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a. Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o que Deus ajuntou.»

Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro, aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, juntando a acção ás palavras, disse:

--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, se não é por causa de adultério, e casar com outra, commette adulterio: e o que se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: E se a mulher deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera.»

De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?

--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu comprehenda?!...

--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...

--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento entre nós...