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Invejo-te, Camões, o nome honroso,
Da Mente creadora o sacro lume,
Que exprime as furias de Liêo raivoso,
Os ais de Ignez, de Venus o queixume:
As pragas do Gigante procelloso,
O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»
(Manoel Maria de Barbosa du Bocage.)
O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do coração humano.
Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das pessoas sujeitas ao ciume.
O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de favores, que lhe minguaram a burra.
O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a desfórra de uma resposta.
Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.
Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.
Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D. Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um terrivel inimigo.