Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.
O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que nasceu na cidade do Porto.
Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.
[8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.
[9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o titulo de Sedatura Lusitana encontramos estes factos preciosos: «Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente.» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III «Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante, e por tal foi sempre muito estimado dos Principes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.» O gráo de authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi procurador em côrtes.»
[10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa antiga seiva artistica de Guimarães.»
[11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. M.
V
BABEL DE SABIOS
«Alli se ajunta bando de casquilhos,
A que o vulgo mordaz chama rafados;
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Altercam mil questões; promptos contendem,
Promptos decidem no que nada entendem.
(Nicolao Tolentino de Almeida)