João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento sério.

Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.

Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca do que entre elles se déra.

No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás linhas do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.

Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por mortalha.

Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.

Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.

Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.

Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua filha Maria da Gloria.

Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.