O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:

«Minha muito presada Maria:

«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.

«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.

«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,

Sebastião.»

D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella ordem paterna.

O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.

Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.

VIII
A MULHER CAHIDA