«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»
(A. H.--Fragmento de um livro inedito.)
Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em premio!
A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta, porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições sociaes, que nos imprimem a legitimidade: levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!
Existiram sempre philosophos, escassos de comprehensão, e mal avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!
A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a mulher não toma parte.
A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.
Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo imperial.
Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades nefandas, de que nos falla o Génesis?!
Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!