--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção de... seu irmão, senhora...
--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua casa combinaremos o que deva fazer-se...
IX
O PERIGO DAS CARTAS
«......e bem se manifesta,
Que são grandes as cousas, e excellentes,
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
(Camões--Lusíadas.)
D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.
Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».
A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar. Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:
«Meu presado irmão adoptivo:
«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e nós esperamos o snr. Arthur com a maior anciedade.