[13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e depois anniquilada por uma incomprehensivel desgraça; nem a conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa coragem!»

[14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.

X
O CRIME

«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta era o seu maximo supplicio.»

(Camillo Castello Branco. Mysterios de Fafe.)

D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá viessem todos ter com elle a Guimarães.

A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita, os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse força para resistir á vontade paterna.

Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no modo de fazer-lhe a vontade.

Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta, que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez, como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do começo d'uma alienação mental.

Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.