Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e expondo ao ar a sua abrazada cabeça.
Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta, e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus crimes.
No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel, para que esta ficasse junto da filha.
Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou terrivelmente:
«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta, que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar, porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»
E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna, apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...
A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da suprema agonia, e cerrar os olhos.
Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:
--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o prolongamento da vida que tens a viver!...
E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.