Depois de viver tanto tempo na miseria tudo para elle era um gozo. Como lhe fizessem{227} novas perguntas, respondia a tudo com volubilidade e narrava com infinito prazer tudo quanto se dizia e fazia em Valneige. Á medida que fallava parecia-lhe que a casa do saltimbanco se affastava, que tinha tido um máu sonho e que conhecia desde muito os donos da casa branca. Comtudo suspirava algumas vezes e exclamou:

—Oh! Gella! minha boa Gella!

—Gostas então deveras d'essa pobre rapariga, perguntou o senhor Deschamps?

—Como não hei de eu gostar d'ella se foi tão boa, tão boa para mim!

Os olhos de Adalberto encheram-se de lagrimas ao pensar em Gella, e começou a lamental-a, como a uma flor deixada entre o matto. Pensava tambem com tristeza na pequena Tilly e mesmo em Natchès, que estava meio estupido, mas tão submisso e inoffensivo.

Por mais confiança que lhe inspirassem os seus hospedeiros o rapazinho não dizia tudo que pensava. Evitava fallar detidamente de Gella, temendo sempre fazer-lhe mal e trahir indirectamente o seu segredo.

Comprehendia que nenhuma das pessoas que o rodeavam conhecia a sua familia, que devia a sua liberdade aos bons corações que a Providencia tinha collocado no seu caminho, e que tudo tinha succedido fóra das provisões de Gella. Esta, ao contrario, não podia duvidar de que a desapparição do pequeno saltimbanco{228} fosse o fructo das suas diligencias; e com effeito assim parecia, mas não era.

A hora adiantava-se, a senhora Deschamps quiz que o seu amiguinho dormisse, e fez-lhe ella propria a cama. Era um grande canapé no seu proprio quarto, e que servia aos seus netinhos, quando vinha um depois do outro alegrar a casa branca.

Antes de se deitar o pequeno de Valneige pediu licença ao senhor Deschamps para escrever umas linhas no fim da carta que iam mandar a seu pae.

—Escreverei ámanhã a valer, mas queria que elle visse mais cedo a minha lettra.