Acharam a idéa delicada, e a criança, que havia dois annos não tinha pegado na penna, rabiscou como poude estas palavras:
«Meus queridos papás.
Sou eu; adoro-os de todo o meu coração.
Seu filho Adalberto.»
Logo depois, subiu para o quarto da senhora Deschamps. Tinha ella de proposito, deitado lá a fita doirada de modo que se visse bem; Adalberto assim que a viu por um sentimento de repugnancia invencivel pegou-lhe bruscamente e deitou-a para o fim do quarto.
A sua affectuosa protectora correu para elle de braços abertos e beijou-o, querendo assim reparar e apagar o que o tinha feito soffrer.
O rapazinho disse a sua oração, que não tinha esquecido, e sentiu-se feliz vendo-se de joelhos{229} defronte d'um Christo de marfim semelhante áquelle que via em Valneige no quarto de sua mamã.
Deitou-se e dormiu, o que parece incrivel, até ás onze horas da manhã! Respeitaram aquelle somno depois de tão vivas emoções. A senhora Deschamps nem quiz que abrissem as taboinhas; sahiu do seu quarto muito devagarinho, e passou para o do marido, onde elle fallava com Julião, que tinha chegado durante a noite.
O barulho das vozes que se cruzavam com vivacidade despertou Adalberto, que teve o pezar de ouvir, sem querer, uma parte da conversação.
Julião com um modo rude e inflexivel, fallava, não sem praguejar um pouco, de policias, de fuga, de buscas; contava a indignação da turba, as maldições de todos contra o chefe da companhia. Emfim, o que Adalberto ficou percebendo era que tinham prendido uma mulher, velha, a andaluza e duas crianças, e que estavam todos quatro na cadêa. Quanto ao chefe tinha fugido assim como seu filho, mas tinham-se expedido ordens e esperavam prendel-os como bandidos mais tarde ou mais cedo.