Atravessando a pequena cidade, este encontrou a tia Tourtebonne, porque ella girava tanto que sempre a encontravam. A boa da mulher não deixou de lhe fallar em Adalberto, e como Julião desejava immenso que a justiça não deixasse de tomar parte n'este negocio, ella concordou com a sua opinião e desejou o momento em que chamada para testemunha, assim como o pesado Baptista, podesse emfim dizer diante dos juizes tudo quanto sabia.
Uma circumstancia se dava que lhe era desagradavel, e vinha a ser a inchação da cara do senhor Baptista, e essa inchação absorvia-o a ponto que apenas lhe restava a força de responder com os seus famosos huns! Só a idéa de figurar n'um processo lhe fazia estender a barba dois dedos, de sorte que a cara tendia outra vez a desapparecer como na vespera. Amigo do socego em todos os tempos, o honrado homem tornava-se fanatico por elle, em presença d'esta incommoda inchação; e quando a sua antiga conhecida o queria fazer ceder, respondia-lhe por um esforço supremo:{235}
—Visto que o pequeno se achou, não é preciso mais nada.
—Não, não, replicava a tia Tourtebonne empurrando o seu carrinho.
Ao mesmo tempo uma outra scena se passava em outro logar. Gella na prisão torcia as mãos de desespero. Ella que só tinha feito bem ao pequeno de Valneige, que tinha favorecido a sua fuga, fiando-se na fé jurada, julgava-se perdida pela criança que tanto amára e na sua afflicção exclamava:
—Que te fiz eu para me enganares assim? Ah! não foi isto o que tu me ensinaste? Dizias-me que o teu Deus ordena que se faça o bem pelo mal, e todos em Valneige me fizeram o mal pelo bem! Teu pae tinha-me escripto dando-me a sua palavra de honra. Devia não ter acreditado n'ella; acreditei porque me disseste que em tua casa nunca se mentia; e tu mentiste e todos me enganaram! Farão condemnar meu pae! Sou eu a causa disso, morrerei de pena, e és tu que me matarás, tu Adalberto!
Assim se lamentava a triste Gella, que, ferida n'um pé, ameaçada de todas as desgraças a um tempo, não duvidava que o pequeno francez não tivesse sido levado pelos seus paes, graças aos esclarecimentos d'ella.
Infelizmente Gella não era a unica a queixar-se. Na vespera á tarde, os camponezes, deixando a festa no meio da confusão causada por uma chuva torrencial, tinham visto ao pé d'uma{236} arvore uma mulher do campo desmaiada. Era alta, pallida, e as suas mãos brancas contrastavam com a simplicidade rustica do seu vestuario. Um homem, que não era certamente seu marido, nem seu irmão, esforçava-se para a fazer voltar a si, não lhe fallava com a sem ceremonia habitual na sua classe, antes parecia experimentar por ella um profundo respeito. Porque? quem era aquella mulher?{237}
Uma mulher do campo desmaiada. (Pag. 236.)