A hora ia adiantada. Na casa branca não se recolhiam tarde. A pendula da sala deu horas; a senhora de Valneige contou nove pancadas e estremeceu, ouvindo aquella bulha,{250} que Adalberto tinha ouvido durante a sua grande agonia. Subiram, e bem depressa cada um, com um castiçal na mão, se dirigiu para o seu quarto.

A senhora de Valneige foi conduzida, pela dona da casa, para o quarto dos hospedes, quarto pequeno, mas aceiado, commodo, agazalhado, como são os ninhos que a amisade prepara. Notou com commoção que tinham mudado para aquelle quarto o leito-canapé. A senhora Deschamps, delicada em tudo, quiz que a mãe visse o filho dormir.

No dia seguinte a senhora de Valneige, não sem excitar alguma curiosidade, perguntou qual era o caminho do hospital, dizendo que queria vêr aquella boa rapariga, que tantas vezes tinha consolado Adalberto. Ensinaram-lh'o e partiu só com seu filho. Vendo-a, Gella sentiu-se esmagada pela sua miseria, pela sua desgraça, pelo crime de seu pae. O seu lindo rosto, emmoldurado pelos seus cabellos pretos em desalinho, revelava assim a humilhação da sua alma inculta e como que abandonada.

A criança, cheia de confiança, abraçou-a como a unica amiga que tinha tido sobre a terra durante o seu duro exilio; e a fidalga pegou-lhe nas mãos para fazer esquecer distancias, e pagar na mesma moeda a bondade de seu coração. Depois sentou-se á cabeceira do leito, e fallou muito tempo baixinho; a{251} rapariga respondia ainda mais baixo, e, no fim da conversa, Adalberto apenas poude ouvir estas palavras, que os soluços entrecortavam:

—Não, minha senhora, eu não sou digna de tantas bondades! Dar-me trabalho em Valneige! De vestir e de comer debaixo do vosso tecto! E vêr todos os dias Adalberto! Oh! seria muita honra para mim! Meu pae não tem outra pessoa no mundo para o tratar se estiver doente, e dar-lhe pão se lhe faltar; elle que já começa a estar velho.

Meu irmão não ficará com elle, porque só a força é que o prende; ha de então ficar sem ninguem? Deixe-me na minha miseria, minha senhora, trabalharei, não como d'antes, porque o medico diz que eu fico côxa; mas estou costumada a coser, e não me faltará boa vontade. Irei encontrar meu pae; sei onde o posso achar; tem muitas culpas, é verdade, para comvosco, para com todos e mesmo para commigo; mas emfim, que lhe hei de eu fazer, minha senhora, é meu pae!

A senhora de Valneige, admirada, dizia comsigo mais uma vez: «Nunca desprezemos pessoa alguma; por toda a parte se encontram boas almas.»

Fallou-lhe, e disse-lhe o que o pequeno Adalberto não tinha podido dizer-lhe sobre a alma e o céo. Tudo se tornava possivel n'estes dias de reclusão absoluta. Gella ficaria por muito tempo no hospital; o esmoller ia instruil-a,{252} e alli, n'aquella caminha branca, que para ella era o berço de uma nova existencia, faria a sua primeira communhão, e unir-se-hia, pobre rapariga das ruas, ao Deus de que a criança tinha dito: «Elle conhece todos os nomes e todas as pessoas.»

Oh! como ella seria recompensada dos seus esforços, e como se sentia bem abençoada, quando a senhora de Valneige, pondo a mão sobre a testa da doente, que abrazava, lhe disse:

—Sê, pois, o anjo da guarda de teu pae; eu serei para vossês toda a minha vida a imagem da Providencia. Em toda a parte onde estiveres, minha filha, lembra-te de mim; em qualquer afflicção que te aches, dirige-te a mim.