Durante este tempo o senhor de Valneige, victima d'uma horrivel inquietação, percorria as ruas adjacentes; teria logo achado Adalberto, se este não tivesse tomado uma direcção completamente opposta. O desgraçado pae ia, vinha, procurava. Seus filhos ajudavam-no com uma{36} anciedade facil de comprehender. O senhor de Valneige sabia pouco allemão, apenas o necessario para as necessidades previstas de qualquer viagem; mas que difficuldade para fallar doutra coisa e sobretudo para trocar com rapidez estas meias palavras, que podem fazer encontrar uma criança perdida! Á força de inquietação quiz acreditar que seu filho teria sabido fazer com que o conduzissem ao hotel, onde estaria tranquillamente sentado entre sua mãe e sua irmã. Encaminharam-se para o hotel a passos largos e em silencio.

Uma vez chegados o senhor de Valneige não ousou subir a escada; não sabia como havia de apresentar-se diante de sua mulher... Ella levantou-se quando seu marido, pallido e transtornado, abriu a porta do quarto, e, comprehendendo a pergunta antes de lhe ter sido feita, respondeu com a expressão d'um desespero subito; «Perdeu-se!»

Ha momentos na vida, que não podem descrever-se. É preciso ser pae, é preciso ser mãe, para se fazer idéa da dôr profunda, immensa, causada pela desapparição d'um filho, quando não foi Deus que o arrebatou do lar paterno. Ao menos aquelles que o vêem morrer, sabem onde devem procural-o pela lembrança; todo o desgosto é para os que ficam, mas elle não póde soffrer; seus paes sabem-no bem e as suas lagrimas não são sem consolação; mas perdido, e perdido sobre a terra! sobre {37}
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{39} a terra onde ha o mal e os malvados... oh! é horroroso.

Dá a mão ao desconhecido que o leva depressa. (pag. 35.)

Sem se deixar succumbir um só instante, o senhor de Valneige, acompanhado de Gervasio, tornou a percorrer a cidade; apoderou-se d'elle uma especie de febre, que o impedia de sentir o cansaço, e o bom Gervasio suspirava, pensando no pobre pequeno, que vira nascer.

O senhor de Valneige apressou-se a recorrer ás authoridades.

Ah! como aquelle desgraçado pae sentia o coração afflicto, quando descrevia os signaes exteriores, que podiam fazer reconhecer seu filho; era loiro, a pelle branca e rosada, uma covinha por baixo da face esquerda, a barba um poucachinho dividida, os olhos castanhos e vivos, uma voz argentina como a de uma rapariga, o que contrastava com os movimentos d'uma bravura inteiramente masculina. A sua figura era, quando muito, d'uma criança de sete annos, apesar d'elle ter perto de oito.

Trajava um fato de panno azul escuro e um collarinho liso, que no momento de sahir tinha sujado de tinta, um pequeno borrão apenas visivel na parte de diante do lado esquerdo. Ao pescoço tinha suspensa, desde o baptismo, uma medalha de oiro, representando a Santa Virgem, com os braços abertos e a cabeça inclinada. Tinha-lh'a dado sua mãe, pedindo á Rainha do Céo que o livrasse do peccado e da morte, em quanto ella fosse viva. Pobre mulher!{40} tinha perdido o seu filho querido, o seu filho mais novo! Pode ser, oh! pode ser que fosse levado por homens crueis, que o fariam participar d'um viver miseravel, que maltratariam o seu corpinho, e que tentariam perverter sua alma innocente com maus exemplos e blasphemias. A esta idéa, que não a deixava, a mãe sentia-se desfallecer. Teria preferido antes vel-o morrer sob as suas vistas do que entregue a gente infame, que faria da sua infancia um longo martyrio, e que talvez o encaminhasse na senda do vicio.

O Senhor de Valneige, completamente desanimado, voltou para o hotel; ninguem tinha visto a criança; nenhuns esclarecimentos se tinham obtido; continuava o mysterio mais profundo sem se saber o que se havia de dizer nem pensar a tal respeito. Iam empregar-se todos os meios possiveis para descobrir Adalberto: mas para os desgraçados paes só restava esperar. Esperar quando se ama um filho mais do que a si mesmo, esperar sem saber se elle ainda respira, se soffre, se chama, esperar n'estas condições, é morrer todos os dias! Passou-se uma semana, uma outra, ainda outra; um mez, dois mezes, tres mezes, nada... Nenhum indicio, nenhuma esperança proxima. Foi preciso voltar para França, depois de se ter estabelecido todos os meios possiveis de correspondencia com Praga; mas toda a gente estava convencida de que o pequeno tinha sido levado{41} para longe, e que só um acaso providencial o poderia fazer achar.