A primavera voltou, Valneige readquiriu a sua belleza, frescura; os passaros cantavam, tudo se reanimára no campo, e só tres corações bem infelizes não quizeram tomar parte n'esta felicidade. Uma velha agitava-se, inquieta, perturbada, irascivel, accusando todos de negligencia, e accusando-se a si mesma de não ter sabido prever e impedir o mal; era a pobre Rosinha, que tinha emmagrecido por causa d'isto! Um homem tinha-se tornado grave e sombrio; já não tinha animação; a melancolia da doença, a que era sujeito, tinha-se tornado o seu estado habitual; os seus negocios estavam descurados, os seus planos futuros abandonados, temia-se que a sua saude, já muito melindrosa, se alterasse profundamente; era o pae. Uma mulher ia e vinha vagarosamente, tratava de seu marido, de seus filhos, da sua casa e dos pobres; mas no seu coração não entrava alegria; tudo n'ella era triste, até o bondoso sorriso com que acompanhava as suas acções para esconder a sua pena; uma energia verdadeiramente christã era o que fazia com que essa mulher não descurasse o mais pequeno dever. A sua vida era uma continua oração. Pensando, girando, andando, chamava! Chamava seu pobre filho por todas as aspirações do seu coração, pela sua coragem, pela sua dedicação, pela sua caridade para com os{42} desgraçados, com todas as véras da sua alma. E á noite, chamava ainda mais por elle, e as suas lagrimas corriam com uma amarga esperança; e ao pé do altar, quando estava só com Deus, não podendo abafar os soluços, dizia unicamente, sabendo que o Senhor a comprehenderia:

«Meu Deus! Adalberto!»{43}

[CAPITULO IV]

[Adalberto estava bem longe.]

Na aldeia tudo é um acontecimento, até a gallinha que canta como o gallo, e que logo é condemnada á morte porque isso se toma por agouro. Póde imaginar-se o effeito, que produziu em Valneige o desapparecimento do pequeno Adalberto.

Não se fallava d'outra coisa e não tinham fim as conjecturas, nas quaes havia uma parte maravilhosa, devida á credulidade e superstição d'aquella boa gente. Um dia veio uma mulher ter com Rosinha e disse-lhe: «Ouça, senhora Rosinha, olhe que o seu pequeno não está perdido.»{44}

A estas palavras, a velha criada levantou os oculos até ao meio da testa, o que para ella era uma maneira de vêr melhor. Se lhe tivessem dado o conselho de os fechar n'uma gaveta não teria querido. Havia quinze annos, pelo menos, que usava oculos, e punha-os no nariz logo de manhã. Pelo dia adiante, servia-se d'elles para ir ao jardim, para subir e descer a escada; mas quando se tratava de dar attenção, de distinguir as côres ou as physionomias, bem depressa os oculos subiam para o meio da testa. A pobre mulher queria-lhes tanto como aos seus proprios olhos.

A Tia Godinette puxou uma cadeira porque o discurso promettia durar.

—Pois é verdade, senhora Rosinha, vou dizer-lhe uma coisa, que ainda não disse a ninguem.

Todos os discursos de Godinette, que fallava muito vagarosamente, começavam do mesmo modo, e sabia-se até que ponto se podia contar com a sua discrição. Quando a boa da mulher não dizia os seus negocios a toda a gente, era porque estava só.