—Ouça, senhora Rosinha, aqui tem o que me succedeu, a mim que lhe estou fallando. Sonhei a noite passada... Primeiro devo dizer-lhe que me doíam as pernas, mas doíam-me como nunca. Olhe, era exactamente nas barrigas das pernas, como uns canitos que me mordessem. Eu dava voltas na cama, como um{45}
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{47} frito na frigideira, e esfregava, esfregava... é necessario sempre esfregar quando doem as pernas; ás vezes é o sangue que pára. Diga-me uma coisa, senhora Rosinha, o que faz quando lhe doem as pernas?

O seu pequeno não está perdido. (pag. 43.)

—Ora essa! esfrego. Mas vamos, vamos á historia.

—Eil-a; emquanto eu estava ás voltas na cama, disse commigo: que horas serão? Deve ser tarde, com certeza. Estou convencida que é mais de meia noite; não sabia as horas, eu, e quem não sabe, a senhora Rosinha ha de ter ouvido dizer, é como quem não vê. N'isto ouço dar horas na freguezia. Ponho-me a contar pelos dedos, uma duas, tres, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez...

—Onze, doze, accrescentou precipitadamente Rosinha que estava sobre espinhos.

—Justamente, dez, onze, doze. Olhem como adivinhou! É fina como um coral.

—Vamos lá, dizia que o nosso pequeno...

—Espere, senhora Rosinha, isto não vai a matar.

—É que assim temos para peras.