Azedada pela fadiga, pela miseria, e pelos incommodos da idade, era o verdadeiro typo de tyranno da companhia. Praxedes queria mal a todos. Embirrava com seu genro a quem chamava o homem de ferro, e que ella detestava; com Gella, que não lhe tinha respeito algum; com seu neto Karik, que lhe resistia praguejando{65} já como seu pae. Quando todos tinham gritado mais do que ella, e lhe provavam que a consideravam mais como criada do que como mãe, ia embirrar com o cão, o horroroso Wolf.
Wolf costumado ás pancadas e a toda a especie de maus tratos, nunca se deixava intimidar. A cada ameaça da velha, respondia rosnando, e quasi que lhe mordia, quando ella lhe dava um pontapé. Respeitava-o até um certo ponto, porque era obrigada a temel-o. Mas havia n'esta mesquinha habitação dois entes, que ella não temia, porque não tinham defesa, e era sobre elles que recahia ordinariamente o seu mau humor. A pobre Tilly era tão pallida e tão fraca, que não ousavam bater-lhe com medo que ella adoecesse e que fosse preciso tratal-a. Praxedes contentava-se de lhe fallar brutalmente, como se não falla a um animal. Exigia, d'esta criança de oito annos uma attenção constante para obedecer ao menor gesto. Quando a pobre pequena tinha commettido alguma falta de vigilancia ou de promptidão, davam-lhe por castigo menos de comer.
Natchès era uma victima. Esta bonita criança de dez annos, cuja robusta natureza havia triumphado dos maus tratos, tinha uma vida digna de compaixão. Praxedes sobretudo não cessava de lhe fazer sentir, que ella não era mais do que um ganha pão. A sua natural docilidade{66} tornada inercia pela sujeição, não a desarmava e muitas vezes a irritava. Batiam-lhe pelo mais pequeno descuido, batiam-lhe por ter respondido e batiam-lhe por estar callada. Adalberto, da sua cama de trapos, assistiu a uma das injustas provocações, que lhe faziam a proposito de tudo.
Na vespera tinha tido a desgraça de quebrar uma gamella rachada, na qual, havia annos, se dava de comer ao cão. Era mais do que o preciso para que a velha se enfurecesse, porque queria mais á sua loiça do que a tudo. Chamou Natchès com voz áspera e disse-lhe:
—Foste tu que quebraste a gamella?
—Sim, disse-lhe o pequeno, que não tinha mesmo a idéa de mentir; fui eu, mas não o fiz de proposito.
—É o que faltava! exclamou a velha, vermelha de colera; ah! tu vais pagar-m'a, mandrião! deixa estar! Canalha! Vibora!
Dito isto uma chuva de bofetões cahiu sobre o pequeno desgraçado. Praxedes, em vez de forças vitaes, tinha uma força nervosa que o furor redobrava; era incrivel a agilidade d'aquellas malditas mãos. Os movimentos ageis e dextros do rapazinho conseguiam felizmente evitar a maior parte das pancadas; mas, vendo isto, a furia pegou n'uma corda para lhe chegar com mais certeza.
Então a pallida e adoentada Tilly deitou-se{67} sobre a pobre criança a quem chamava irmão, por causa da sua desgraça commum.
—Perdão, perdão! gritou ella, oh! não lhe faça mal.