Mas a velha, como se não ouvisse esta supplica afflictiva, batia á vontade para vingar a sua gamella. E Gella? Gella tratava da casa, tomando conta da panella do almoço, na especie de cosinha microscopica armada fóra n'um cotovello da escada. Como! Pois Gella, uma rapariga, não acudia em soccorro de Natchès? Não; estas horrorosas scenas repetiam-se tantas vezes, que já estava habituada, e só intervinha em casos excepcionaes. O seu coração tinha-se endurecido vivendo com gente má, e, ainda que houvesse n'ella uma bondade natural, como o seu sorriso o provava, raras vezes se commovia.

Quem fallará pois em favor de Natchès? O homem da mão de ferro, fuma em silencio o seu cachimbo; o horrivel Karik faz escarneo. Gella não diz palavra, e a meiga Tilly chora e supplica sem obter nada. Quem defenderá a victima? Ha de ser Adalberto, em quem se acham gravadas em caracteres indeleveis as tradições de familia, a justiça e a piedade. Levantou-se com resolução e cobriu com o seu corpo o pequeno, e recebendo por elle algumas pancadas, gritou com todas as suas forças:

Você não tem direito de lhe fazer mal, e Deus ha de castigal-a.{68}

Se Adalberto não estivesse no primeiro dia do seu triste desterro, é fóra de duvida que se teria arrependido da sua nobre ousadia; mas, logo no principio, a intervenção audaz do infeliz pequeno encheu de admiração aquelles espiritos grosseiros. O homem de ferro lançou para o ar uma baforada de fumo e com uma tremenda gargalhada, quebrou a furia de sua sogra. Á gargalhada seguiram-se graças de Karik e algumas boas palavras de Gella, que não desgostou de vêr Natchès em liberdade, apesar de não dar grande importancia a tudo aquillo.

Uma palavra dita por Adalberto produziu o effeito mais singular. Tinha dito: «Deus a castigará.»

—Onde está o teu Deus? perguntou o homem do chapeu grande, dirigindo-se pela primeira vez a Adalberto.

—Está em toda a parte, disse orgulhosamente o pequeno de Valneige, excitado pela indignação.

—Sim, senhor, não é mal respondido; querem vêr que tambem está na minha barraca?

—Está, sim, respondeu o pequeno; está e vê tudo.

Envergonhado do seu atrevimento, Adalberto abaixou os olhos, e viu a boa Tilly assentada no chão e olhando compadecida para o pobre Natchès, de quem gostava mais desde que lhe batiam. O mestre voltou-se para o nosso amiguinho e disse-lhe sem colera:{69}