O bom Natchès tinha chegado ao ideal da{79} flexibilidade e da graça. Tinham-lhe batido tanto desde a sua infancia que previa as ordens do mestre, applicando-se de todo o coração e fazendo maravilhas.
Era uma bella criança cheia de saude, mas o moral tinha fraquejado; o seu olhar tinha um tanto de servil; e quando obedecia ao menor signal, parecia-se com o cão de caça que se chega arrastando-se muito humilde, e felicissimo por lhe não baterem. Adalberto lamentava-o, não tanto pela sua desgraça como por não sentir a miseria da sua sorte. A natureza energica do pequeno de Valneige não comprehendia esta natureza fraca e completamente domada.
Quanto ao feio e mau Karik, exercia o seu rude officio imitando seu pae nas posições herculeas, nos seus olhares sombrios e nas suas terriveis juras. Era d'um caracter ligeiro, e juntava a isto chalaças triviaes que repetia a si mesmo, estudando debalde tornal-as finas.
Asseguravam que tinha um futuro, que se faria d'elle alguma coisa! Não se prestando o seu exterior aos papeis graciosos, dedicava-se ás forças. Esperavam vel-o como seu pae, andar de roda de uma praça publica, sustentando entre os dentes uma grande pedra presa a uma corda; o pescoço inchado, as veias quasi a arrebentarem, a cara a escorrer; era a este genero de proezas, que se destinava aquelle rapaz.
Para descançar, torcia os membros da maneira{80} mais grotesca, deitando-se para traz e levantando uma cadeira com destreza, engulindo pedras, comendo fogo... que sei eu? Adalberto estava espantado!
Só tinha, comtudo, um pensamento, vendo trabalhar a companhia; era achar meio de se evadir. Mas como? Ás vezes pensava em implorar Gella; mas conhecia-a elle bastante? Se ella mangasse com elle, ou fosse repetir as suas palavras ao mestre, e redobrar por consequencia a sua desconfiança? Nada; era impossivel aceitar esta idéa. Todas as vezes que pensava em fugir, lembrava-se que a fuga era impraticavel e perigosa em um paiz onde elle não conhecia a lingua. Viu-se forçado a adiar a execução do seu projecto, porque fallavam de deixar as montanhas e de viajar lentamente na direcção do Rheno; ora o Rheno era uma esperança para elle; sabia que mesmo antes de lá chegar encontraria muitos homens que fallariam francez. A pobre criança tornara-se de repente medrosa, submissa, e paciente; não fallou a pessoa alguma e resignou-se a esperar, para não lhe falhar o seu projecto.{81}
[CAPITULO VII]
[Adalberto ouvia nas trevas o bater do relogio.]
Quando os Ciganos se pozeram a caminho, depois de terem passado muito tempo nas montanhas, Adalberto viu com susto, que era objecto de grande e nunca interrompida vigilancia. O mestre, a velha, Karik, e mesmo a boa Gella, eis os espiões que dia e noite o rodeavam. Mais terrivel do que elles todos, o velho cão rosnador olhava-o com olhos chamejantes, e parecia querer engulil-o se tentasse fugir. Decididamente a occasião ainda não chegára; e quando chegaria ella? Paravam em toda a parte; acampavam nos arredores das cidades, a maior parte das vezes sem entrar{82} n'ellas, a não ser que houvesse alguma festa popular; o pobre pequeno figurava, coitado! n'estas festas! Quanto á velha cigana, horrenda creatura, ia por alli fóra lendo a sina a quem queria ouvil-a, examinando attentamente a palma da mão das pessoas supersticiosas, a quem pregava absurdas mentiras, que a faziam rir ás gargalhadas, quando estava em familia. Adalberto, apesar de haver já um anno que via todos estes manejos, não se habituava a elles, indignava-se d'essa conducta e tinha horror áquella furia.
Á sua pena juntava-se o receio de nunca achar maneira de pôr em execução o seu projecto. De que servia atravessar terras onde o prisioneiro podia fazer-se entender se nunca o perdiam de vista?