Comtudo fallava-se sempre no Rheno, e tratava-se de parar um pouco ao sul da Alsacia, depois do que se encaminhariam talvez para os lados do Lyão, onde Gella veria sua tia, respeitavel mulher que, em memoria de sua irmã, que morrera tão nova e tão desgraçada, gostava da pobre cigana e lhe queria bem. Estas palavras, que Adalberto apanhava ao acaso e que Gella lhe repetia de boa vontade, davam coragem ao prisioneiro, e, guardando só para si o seu segredo, fazia tenção de aproveitar ávidamente a primeira occasião favoravel.
Depois que passaram o Rheno, o rapazinho respirou um pouco mais livremente; não duvidava{83} da sua proxima liberdade, e tardava-lhe saber onde primeiro parariam.
Viu com grande alegria, que pararam logo na primeira noite defronte d'uma pequena cidade, cujo nome ignorava. Uma cidade, uma multidão, outras tantas rasões para ter esperança. Fugir d'alli, era o seu unico pensamento; quanto ao que se seguiria estava convencido que nenhuma situação podia ser peior do que a sua.
Quando chegou a noite, as mulheres cuidaram em renovar as provisões. Ordinariamente era Gella que, com o cabaz no braço, ia comprar o pouco que era preciso, ou pelo menos o pouco que podiam arranjar; porque o Hercules comia e bebia nas tabernas que encontrava no caminho, empregando no serviço do seu vigoroso estomago uma boa parte do dinheiro que ganhava a companhia, e não deixando aos outros senão muito pouco. Feijões, repolhos, batatas, era a comida ordinaria; um caldo da carne só por extraordinario.
Como era impossivel queixar-se diante do despotismo do mestre, cada um se contentava com amaldiçoar em voz baixa a força poderosa, que governava sem bondade.
N'aquella noite, o Hercules declarou que tinha negocios na cidade, e que ahi acompanharia Gella e as crianças, emquanto que Praxedes, com o seu neto e o horrendo Wolf, guardariam a casa.{84}
Adalberto, vendo-se de partida, sentiu redobrar-lhe a esperança. Olhava de longe para a cidade e para as ruas tortuosas, e pensava na possibilidade de fugir.
—É tão grande e eu sou tão pequeno! Não me verão. E de mais a mais as ruas são tão mal illuminadas!
Acostumado á prudencia o Hercules fez signal a Gella para dar a mão ao recem-chegado; desconfiava que aquelle espirito corajoso e atrevido só se domaria pela força, e pensaria sempre na fuga. Gella deu pois a mão ao rapazinho. Quanto ao pacato Natchès, estava tão mortificado, que a sua escravidão parecia-lhe uma necessidade, e que a idéa de se libertar não chegára a passar-lhe pela cabeça. Caminhava em perfeita liberdade ao luar, correndo adiante de Tilly, que nunca corria, tão fraca e doente era! O seu abatimento e a sua juventude escondiam-lhe sem duvida em parte a vergonha e a miseria da sua posição; comtudo, quando encontrava nos seus raros passeios uma pequenita bem vestida, a quem fallavam com doçura, achava-se de repente bem desgraçada.
Partiram, e, sem que o mestre dissesse uma só palavra pelo caminho, entraram na cidade. Ali, separaram-se: o Hercules tomou á direita e Gella, com as tres crianças, tomou á esquerda, emquanto seu pae lhe dizia n'um tom que, para ella, era a expressão d'um poder absoluto:{85}