Quando o operario tinha trabalhado um certo tempo, parou de todo, fosse porque estivesse cansado, ou porque tivesse acabado aquella obra singular. Todo o barulho cessou, mas não se ouviram os passos de uma pessoa que se affastasse.
A criança prostrada por successivas emoções, moida pela sua propria agitação, acabou por sentir no corpo o peso que precede o somno, e no espirito a quietação a que se segue o esquecimento. Isto durou até ao momento em que o relogio deu duas horas. Depois, nada mais ouviu; tinha adormecido.
O somno é o amigo dos desgraçados, Deus concedeu-o para contrabalançar poderosamente{116} os nossos males; é n'esta especie de banho refrigerante que os nossos pensamentos descansam, que os nossos receios se dissipam, que a nossa vontade recupera o socego e a força, que são necessarios para nos conduzirmos; mas se o somno é doce para aquelle que soffre, como é amargo o seu despertar! Tinha esquecido, e todas as sensações, penosas lhe são restituidas uma a uma. O silencio em redor d'elle, e n'elle mesmo, faz desapparecer, é verdade, os fantasmas da imaginação; mas a realidade está alli, e o coração começa de novo a soffrer.
Quando Adalberto despertou, a primeira claridade do dia chegava apenas ao subterraneo; não podia ainda distinguir o que o rodeava, mas as suas recordações voltavam dolorosamente, e lamentava-se por não poder dormir sempre.
Os seus pensamentos eram tão tristes que não sabia como escapar-lhes. Entre as imagens que lhe appareciam escolheu uma para descansar das outras; representava-a, como se a visse diante de si, a sua querida e pobre mamã, e via-a realmente com o seu coração, porque a ternura que tinha por ella não lhe deixava esquecer o menor detalhe. Parecia-lhe mesmo vêl-a até com a alliança que ella usava, e que tinha sido sempre uma das grandes alegrias de Adalberto. Esta alliança tinha de particular que, sendo mais grossa do que estes anneis costumam ser ordinariamente, havia sido do agrado da senhora de Valneige fazer{117} gravar na parte de dentro as iniciaes dos nomes dos seus filhos por ordem de nascimento.
Quando Adalberto era pequeno, se havia sido bonito, obtinha da sua mamã o favor de abrir elle mesmo a alliança e de vêr a lettra A, que representava o seu nome.
Antes mesmo de saber o alphabeto correntemente, o rapazinho, quando o famoso annel se abria, nunca deixava de exclamar:
—Isto é um C, quer dizer Camilla; isto é um E, quer dizer Eugenio; isto é um F, quer dizer Frederico, e isto é um A, quer dizer Adalberto!
Quando chegava aqui, dava duas ou tres pancadinhas no peito, para se assegurar que era effectivamente elle; depois batia palmas, e a sua mamã beijava-o; acabava sempre assim.
Este annel representava um grande papel na educação maternal do pequenito, e n'um dia que tinha commettido uma falta enorme, quer dizer, que tinha dito um não pensando sim, que tinha, n'uma palavra, mentido, a senhora de Valneige havia-lhe declarado, olhando muito severamente para elle, que se semelhante coisa tornasse a succeder, mandaria o seu annel ao ourives para apagar a lettra A. E o bom pequeno não tinha mentido mais desde esse dia.