Quando, n'este triste subterraneo, o prisioneiro deixava de pensar na sua mamã, não encontrava no seu espirito senão motivos de{118} receio. O resto das trevas impedia-lhe de seguir os movimentos da ratazana. E depois, perguntava a si proprio com medo onde estaria o trabalhador mysterioso? Teria adormecido ali perto, ou, teria partido? Não, nenhuma porta, se tinha aberto, e Adalberto não podia duvidar que, excepto o balancear da pendula, tudo na casa estava immovel.

Evitava pensar no marceneiro, mas então voltava o Hercules. Oh! que medo! se tivesse de o tornar a ver, e ser apanhado pelas suas grandes mãos que o teriam esmagado se lhe tocassem! O rapazinho tremia só com esta idéa. E a velha? oh! a velha, ainda lhe fazia mais medo; a impressão que ella produzia no seu cerebro fatigado, e sobre os seus nervos doentes, era pouco mais ou menos a mesma impressão produzida pela feia ratazana que se agitava na escuridão. E Gella? ah! Gella! teria talvez sido boa! Porque não tinha elle respondido quando ella lhe disse tão devagarinho:

—Pequeno, estas tu ahi?

Tinha pena de o não ter feito, e comtudo ella tel-o-hia provavelmente levado para a casa ambulante, e então o que teria succedido? O Hercules ter-lhe-hia dado pancadas como em um pobre cão? ou antes, na sua furia, não o teria matado? Este homem, pela sua grande estatura, pelos seus olhares carregados, e pelo seu silencio quasi continuo, havia impresso no espirito do prisioneiro um temor inexplicavel.{119}

Quando conseguia não pensar n'elle, interrogava-se a si proprio, para saber como sahiria do seu tumulo, ou se não morreria antes n'elle, sósinho, e longe dos seus bons paes?

Entretanto o dia augmentava; Adalberto pôde emfim tomar conhecimento da sua triste habitação. Como não tinha tido na infancia a cabeça transtornada por contos pavorosos e absurdos, não imaginava estar n'um sitio muito escondido, visitado de tempos a tempos por alguma fada malfazeja, ou algum monstro horroroso. Não; julgava simplesmente ter cahido n'uma adêga subterranea ou n'uma casa da lenha, como a adêga e a casa da lenha de seu pae; e assim era effectivaménte; estava n'um subterraneo que fazia as vezes de ambas as coisas. A casa isolada em que elle se achava, em consequencia da sua deploravel aventura, era uma casa de pouca importancia, assaz tafula na sua simplicidade, muito querida dos donos; via-se isto pelo cuidado com que estavam tratadas as taboinhas verdes, as paredes brancas, e até nos menores detalhes. Um unico subterraneo, grande e salubre, servia de adêga, de casa de lenha, de carvoeira e de arrecadação. Os olhos do cativo, desde que se costumaram á meia luz, encontraram achas de toda a grossura, e alguns centos de garrafas vazias, bem arrumadas sobre duas ordens de prateleiras. Por outro lado, velhos instrumentos de jardinagem, taboas, um tonel,{120} uma gaiola quebrada. Viu tambem a especie de cama sobre que tinha passado a noite; era o pó do carvão, misturado, com alguns bocadinhos, resto da provisão que de certo, tinham o costume de pôr n'aquelle canto justamente debaixo da fresta. As mãos do rapazinho estavam todas pretas, cara e cabello deviam estar cobertos d'aquelle pó; devia parecer exactamente um limpa-chaminés.

—Tanto melhor, disse comsigo, se eu puder fugir e encontrar o mau homem, tomar-me-ha por um pretinho e deixar-me-ha passar.

N'esta idéa, imaginou mascarrar-se de preto, e apanhando ás mãos cheias o pó do carvão, esfregou a cara, tendo o cuidado de carregar mais nas sobrancelhas e de empoar desde a raiz os seus cabellos loiros, depois de ter deitado para longe de si a horrorosa fita que lhe tinham enrolado na cabeça.

Ah! se a boa velha Rosinha o tivesse visto n'aquelle miseravel estado, nunca teria podido reconhecer o seu querido loirinho; quando muito a senhora de Valneige, por instincto maternal, teria presentido n'elle o seu filho querido, o seu ultimo filho, o seu Benjamim!

Quando Adalberto acabou de mascarrar-se, teve horror de si mesmo. Ao seu vergonhoso fato, accrescentou voluntariamente uma camada de côr preta que o desfigurava; comtudo, era um bom meio de passar desapercebido.