Tomar-me-ha por um pretinho. (Pag. 120.)
Se elle tivesse podido arrastar o tonel para{121}
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{123} debaixo da fresta e pôr-lhe em cima algumas taboas, pode ser que se tivesse podido içar com grande custo até á abertura; mas era impossivel fazer mover aquelle tonel; Adalberto era mais geitoso e mais agil do que forte e o tonel parecia agarrado ao chão. O que havia de fazer? As horas da manhã passaram-se em mil tentativas infructuosas, sem que podesse conceber a menor esperança de resultado.
Um dos supplicios da pobre criança, era o frio de Novembro, que descia pela fresta e lhe gellava sobretudo os pés, que tinham estado parados havia tanto tempo. Tinham-no felizmente habituado em Valneige a supportar os rigores do inverno. Quando se queixava de frio, em lugar de lhe dizerem «aquece-te» diziam-lhe: «Vai correr, e não te ponhas a chorar, porque homens não choram por tolices.»
O pequeno sabia pois fazer todos os exercicios proprios para restabelecer a circulação do sangue, e por consequencia para chamar o calor. Pensou que era este o caso de empregar as suas habilidades.
Sósinho no subterraneo e longe de todo o soccorro humano, porque o trabalhador não dava signal de vida, Adalberto experimentou um sentimento de reconhecimento para com seus paes, e para com todos aquelles que o tinham rodeado de cuidados varonis, razoaveis sobretudo. Nada tinha abrandado no seu espirito os instinctos masculinos. «Ah! se eu tivesse{124} sido educado como uma rapariga, que seria hoje de mim?» Graças a esses movimentos gymnasticos que elle estava habituado a fazer, Adalberto sentiu um doce calor espalhar-se-lhe por todo o corpo e por este lado não teve mais inquietação. Este socego deu-lhe vagar para pensar mais no marceneiro. Estaria elle ou não alli?
O prisioneiro olhava para o lado da porta, espreitava pelo buraco da chave; mas inutilmente. As trevas eram espessas da parte de fóra, e a criança apressava-se a voltar para debaixo da fresta porque o ar, a claridade, a liberdade tudo ali estava. A fresta parecia-lhe o unico intermedio entre elle e o mundo.
Comtudo, o solitario conseguira vêr assim distinctamente o que o rodeava. Notou na parte debaixo da porta um entulho muito recente, de forma semi-circular, e sobre o chão uma poeira amarellada que não era mais do que a madeira reduzida a pó por um trabalho perseverante. A criança, que tinha uma imaginação viva, sabia aproveitar as suas recordações. Pouco tempo antes da viagem, a cosinheira de Valneige tinha fallado dos estragos causados pelos ratos; tinha sido preciso tapar alguns buracos, reparar em certos sitios a madeira damnificada pelos dentes incisivos d'estes animaes roedores, e Joanna tinha exclamado: «Ai! que ruins bichos! pois não parece que isto foi feito por um marceneiro?»{125}
E Gervasio, que dormia d'aquelle lado da casa, ainda que no segundo andar tinha accrescentado: «Na verdade, se eu esta noite não soubesse que era um rato que roia a madeira, em vez de ir cahir na ratoeira que eu lhe tinha armado, teria julgado que era um marceneiro a trabalhar.»
Adalberto applicou á circumstancia estas diversas lembranças, e, comparando os factos, veiu a concluir positivamente que o supposto marceneiro tinha passado a noite no canto da adêga, e não era outro senão o rato que, effectivamente, tinha desapparecido do canto antes de começar a bulha. Foi para o espirito preoccupado do rapazinho uma verdadeira consolação; mas esta mesma consolação permittiu-lhe pensar mais em um outro genero de miseria, mais grave que os outros e cem vezes mais ameaçador. O que era?