—Perdão papá! perdão mamã! perdão todos!
Uma idéa pungente lhe veio no meio d'esta atroz desgraça; lembrou-se que n'aquelle mesmo dia, ás nove horas da noite, fazia nove annos. Era o dia 3 de Novembro anniversario do seu nascimento, e, n'estas occasiões, havia em Valneige uma pequena festa. Como cada criança que nascia era mais uma alegria, agradeciam-na a Deus todos os annos redobrando de ternura entre os membros da familia, por beijos, presentinhos, e um festim, que Joanna preparava com muito mysterio, e ao qual Rosinha juntava alguns pasteis feitos pela sua mão. O senhor de Valneige estava n'estes dias mais alegre do que o costume, brincando com seus{128} filhos, fechando os olhos ás ligeiras infracções do regulamento. Se por desgraça dava por qualquer coisa desagradavel, voltava-se para outro lado para não ser obrigado a castigar.
Em quanto á doce e paciente Adilia bastava não sahir dos seus habitos quotidianos para a sua presença tornar todos felizes; e não ha duvida que se ella faltasse á reunião todos exclamariam: «Onde está então a festa? falta a mamã aqui.»
—Que farão lá em casa, perguntava a si mesmo Adalberto suspirando. Ninguem dirá em voz alta: é hoje que elle faz 9 annos. Mas toda a gente o pensará. Não haverá festa; o papá ficará na sua poltrona a ler o jornal, e póde ser que ao jantar diga: «Então, Adilia, tu não comes?» Mas não perguntará porque á mamã. Saberá que é por causa do seu filhinho. Oh! que desgraça! meu Deus, que desgraça!
A pobre criança era tristemente distrahida dos seus tormentos por uma d'estas inquietações pueris que, em toda a idade, cansam e preoccupam. Havia ao longo da parede bichos pretos, feios e delgados, com uma grande quantidade de pernas. Iam e vinham em todo o sentido, entrando em pequenos buracos, d'onde sahiam logo depois. Adalberto olhava-os de revez, tendo tanto horror de os vêr como de os esborrachar. Uma enorme aranha occupava o canto da direita; mas trabalhava com tanta actividade no seu officio de tecedeira, que{129} o pequeno não lhe dava grande attenção; eram os bichos pretos que o atormentavam.
Ainda que a vida n'este subterraneo fosse horrivel, sobretudo com os soffrimentos da fome, Adalberto por um lado desejava suster as horas, porque via com um susto progressivo o aproximar da noite. O relogio tinha dado quatro horas; havia ainda na estrada e no campo uma luz pallida, mas no subterraneo o dia ia fugindo, e com elle esta esperança que o sol dá aos desgraçados e que a noite lhes rouba, juntando aos seus pezares as vagas tristezas da escuridão.
Então a pobre criança pensou que tudo se tinha acabado para ella, e que o novo anniversario do seu nascimento seria o ultimo da sua vida. As suas forças diminuiam, sentia a cabeça pesada, todo o seu corpo se tornava molle e perguiçoso, como se fosse dormir o seu ultimo somno. Alguma claridade allumiava ainda a parede que ficava defronte da fresta. Adalberto via o dia acabar, e não julgava tornal-o a ver mais.
Por um profundo sentimento de ternura, teve a idéa de pegar n'um bocado de carvão e de escrever na parede os nomes de todos aquelles que amava. Levantou-se com custo, e com a mão que a fraqueza e a ternura fazia tremula escreveu: Papá, mamã, Camilla; e as lagrimas saltavam-lhe a cada palavra que lhe lembrava a sua familia. Arrependia-se do fundo do seu{130} coração, não só da sua ultima desobediencia, mas de todas aquellas que tinha commettido durante annos; não só das que seus paes tinham castigado, mas tambem d'aquellas, mais numerosas, que só Deus tinha visto.
No seu arrependimento, o desgraçado pequeno, pôz-se de joelhos, e, com o coração despedaçado pelo desgosto, escreveu com grandes lettras: «Roubaram-me porque desobedeci, foi culpa minha!»
O dia acabou de todo, e Adalberto foi de novo encolher-se sobre a sua taboa com as costas para o tonel. Um silencio de morte deixava-lhe ouvir a sua respiração desigual, e até os seus menores movimentos.