—Oh! não! tenho muita fome!

—É verdade, já não me lembrava. Toma, aqui tens metade do meu pão que guardei para ti; come.

Adalberto precipitou-se sobre o pão que lhe davam. O filho do senhor de Valneige achou-se muito feliz por poder comer os sobejos d'uma pobre dançarina de feira. De mais, este pão não era o pão da miseria, era o pão da amizade. Quando chegaram ao campo, Gella viu que as pernas de Adalberto fraquejavam.

A alma d'aquella rapariga: tinha-se revelado a si mesma pela compaixão; pensou que sendo grande e forte, tanto quanto o seu protegido era pequeno e delicado, podia poupar-lhe a extrema fadiga do caminho no estado de fraqueza em que elle se achava.

N'esse momento, o vento abrandou, o céo aclarou-se, e Gella viu que o pequeno estava todo preto.

—Que tens tu, Mustaphá?

Elle explicou-lhe o que tinha feito. Ella não se admirou; fôra o desejo de escapar a seu pae, a sua avó, e ao seu modo de vida: pareceu-lhe bem natural. Fez subir o pequeno para as suas costas e passando cada um dos pés por baixo dos seus robustos braços, encaminhou-se para um grupo de carvalhos, perto dos quaes estava parada, a carruagem. A distancia, era{136} grande, o caminho completamente deserto; puzeram-se a conversar com aquelle abandono que nasce de repente das situações extremas.

—Bem me parecia a mim, que tu estavas n'aquella adêga. Porque não me respondeste tu hontem quando eu te chamei? Julgavas-me então muito má?

—Não sabia o que havia de pensar; quando batiam em Natchès, não dizias nada.

—Podéra! isso succede tantas vezes, que já não se faz caso. E depois, é tão tolo, aquelle pobre pequeno! provoca pancadas que um outro saberia evitar. Agora, que penso n'isto vejo bem que não é feliz. Mas, vês tu, quando se é creado com pancadas não se faz caso das que levam os outros.