—Pelo buraco da chave?
—Não, pela fresta da adêga.
—O que! vossemecê está a mangar; não cabe uma perna minha.
É preciso saber que a senhora Tourtebonne era gorda, mais do que o ordinario, e quasi redonda, de modo que, para lhe caber uma perna n'uma fresta, seria necessario fazel-a de proposito. Acostumada ás suas dimensões, não suppunha que alguem podesse penetrar por ali, e os medos de Sophia pareciam-lhe destituidos de fundamento; a cosinheira, vendo-a duvidar accrescentou:
—Não me acredita? Pois bem, venha vêr.
Dito isto, metteram no pateo a pequena carreta, e a tia Juliana, acendendo a sua véla, conduziu á adêga a tia Tourtebonne.
—Que felizes que são, disse a gorda creatura rindo ás gargalhadas, aquelles que cabem pela tal fresta! Eu mal passo pela escada! Como é estreita! não tem mesmo geito nenhum! E a porta? Mas em que pensava o architecto?
Indo ás apalpadellas conforme podia, porque a véla quasi que não allumiava, a tia Tourtebonne chegou á adêga. Uma vez sobre o terreno, Sophia contou, sem faltar nada, a scena do dia da chegada; o seu susto, as taboas, o diabo e a fita doirada; o que tinha dito a senhora, o{165}
{166}
{167} que tinha dito o senhor, o que tinha dito Julião; e a vendedeira, quando o seu espirito se achou sufficientemente preparado para uma grande eommoção, foi convidada a voltar-se para a parede e a ler ella mesma as palavras escritas com carvão.
Maçãs, sempre maçãs. (Pag. 162.)