Se se preparava um espectaculo e a pobre criança estava com mau parecer ralhavam-lhe. Por isso tinha ella todo o cuidado em esconder os progressos do que ella chamava o seu defluxo. Esse defluxo era uma indisposição geral, acompanhado muitas vezes d'alguma febre, e muitas vezes de vontade de chorar sem saber bem porque. Era então que dizia com tristeza a Adalberto, sempre tão compadecido d'ella:

—Tudo me dóe, mas, em mim, não importa.

As duas crianças raras vezes conversavam.{172} Desde a sua fuga, Adalberto era vigiado de perto, não só para evitar uma segunda tentativa, mas pelo receio que o seu fallar ousado trahisse a irritação que a sua indignação lhe causava. Comtudo soube que aquella interessante doente não tinha lembrança alguma da sua primeira infancia, e que a casa do saltimbanco era a unica habitação que conhecia. Ainda que nunca tivesse visto outra casa repugnava-lhe por instincto tudo quanto ali se dizia e fazia. O seu aspecto era d'uma outra origem, e ella propria o sentia tão bem que evitava quanto possivel de pedir qualquer coisa á velha Praxedes, tanto lhe custava chamar-lhe avósinha. Esta querida criança ficou espantada, quando viu no joven Valneige um coração doce mas energico, um espirito que sabia dobrar-se sem servilismo. Nas suas raras conversas ensinou-lhe Adalberto que ella tinha alma e que ha um Céo.

—Acreditas que eu vou para o Céo, perguntava ella ingenuamente?

—Sim, has de ir, porque a mamã diz que se vai para lá com certeza, quando a vontade é boa, quando se não faz mal de proposito, e quando se ama a Deus de todo o coração.

—Se eu o não amava, vês tu, é porque o não conhecia; mas, dize-me, acreditas que é d'aqui a muito tempo, muito tempo, que eu hei de ir para o Céo?

—Essas coisas não se sabem.{173}

—Pois eu penso que será brevemente, por causa de meu defluxo. Quando tusso doem-me as costas; é talvez a morte que chega, e depois o Céo.

—Pode ser, não entendo d'isso.

D'este modo o pobre preso dava á doentinha as luzes que tinha recebido de seus paes, e, quando ella queria testemunhar-lhe o seu affectuoso reconhecimento, procurava um instante em que os outros estavam ausentes, e repetia baixinho, muito baixinho ao seu amiguinho o seu verdadeiro nome: