—Adalberto! Adalberto!

Para o exilado era uma grande felicidade. Quanto á brusca filha do Hercules cada dia que passava, mais ella se prendia ao seu protegido; e apezar de lhe fallar sempre em tom rude e breve, elle não podia duvidar da sua bondade, e esforçava-se por lhe testemunhar a sua gratidão, fazendo-lhe mil pequenos serviços.

Quando, de longe em longe, os trabalhos da casa do saltimbanco, ou as compras, isolavam um momento estes dois membros da companhia, Gella cessava de ser rude, e tornava-se boa. Sentia que no seu coração desabrochavam pensamentos delicados e uma sollicitude que tinha alguma coisa do amor maternal. Em troca recebia mais do que dava; crescia moralmente, e aprendia como Tilly que tinha alma e que ha um Céo.

Na ingenua criança, não havia difficuldade{174} em aprender; mas na morena filha dos Ciganos, havia combate, e muitas vezes dizia:

—Olha, pequeno, não entendo muito de todas essas coisas; aprendi só a trabalhar para comer e beber; tenho uma cabeça rude. E, de mais, o que sou eu? nada; vivo sem saber porque nem para que. Ora! elle não gosta de mim, o teu Deus!

Adalberto respondia:

—A mamã dizia que elle ama a toda a gente. Não fazes tu parte d'essa mesma gente? Oh! Querida Gella, elle conhece-te; sabe todos os nomes e vê todas as caras.

O bom rapazinho tinha tanta sinceridade d'alma, e na voz tanta meiguice, que a pobre rapariga ficava ás vezes meia convencida, e a sua miseria moral humilhava-a diante do prisioneiro.

Havia algum tempo que Adalberto se admirava muito d'uma coisa, era do desejo que Gella mostrava de aprender a escrever certas palavras, sempre as mesmas. Estas palavras pareciam não ter entre si ligação alguma, e, comtudo, Gella prestava-lhes uma idéa seria, que tinha o cuidado de esconder.

Muitas vezes, quando se achava só com o captivo, pegava n'um pau e traçava grosseiramente no chão as letras, cujo modelo elle lhe fazia.