—Mas para que são sempre as mesmas palavras? perguntava o pequeno professor.{175}

—Cala-te, meu mestre, respondia Gella rindo. Vejamos, faze-me escrever o oe, a a, o que é preciso para escrever pae... vós... eu... etc. etc., cá tenho as minhas razões.

O pequeno, sem perceber nada, traçava com um paosinho estas palavras no chão; depois a discipula experimentava copiar; o mestre dizia que estava muito mal feito e apagava tudo com os pés. Estas lições mysteriosas eram quasi sempre um divertimento para o pobre pequeno Valneige.

Em troca, Adalberto aprendia com Gella muitas coisas; era ella quem todos os dias lhe fazia estudar o que chamava os seus exercicios, quer dizer movimentos a compasso, saltos, curvas, passos de dança, tudo quanto póde tornar o corpo flexivel. A criança tinha uma grande facilidade em comprehender e executar; era um rapaz que dava esperanças, dizia o mestre, deitando bem alto o fumo do seu grande cachimbo, o que n'elle era indicio de um contentamento perfeito. Estas disposições naturaes, juntas ao cuidado que elle tinha em satisfazer Gella, fizeram-no adiantar depressa no unico estudo que exigiam d'elle, e em pouco tempo poude figurar com vantagem nas representações, nas grandes feiras e nos espectaculos das cidades. Era um triste officio! Estar vestido como um dançarino de corda, dar cambalhotas, dançar a polka, saracotear-se até se estafar; e depois andar a pedir com a bandeja para{176} ganhar alguns vintens. E, comtudo, era o que tinha que fazer o pequeno castellão; mas, quando acabava de figurar, doía-lhe o coração e tinha vontade de chorar. O seu vestuario, ainda que muito gracioso, humilhava-o, e os applausos de toda aquella gente faziam-lhe vergonha.

Tinha sido educado em idéas totalmente differentes; seus paes tinham por principio que uma criança nunca deve occupar os outros com a sua pessoa; que a boa educação consiste em responder quando se é interrogado, sem nunca ser o primeiro a dirigir a palavra; em não fazer notar nem valer as suas pequenas habilidades, senão quando positivamente lh'o authorisem. Eis o systema adoptado em Valneige, e, apezar de Adalberto ser estouvado, estes excellentes principios, tinham impresso traços indeleveis no seu espirito. Por isso lhe era tão penoso subir para o palco diante d'um publico grosseiro, cujo ludibrio elle se tornava.

Natchès, ao contrario, nunca parecia tão contente como nos dias das grandes feiras. Estava á sua vontade vestido de palhaço, e, como se sahia muito bem das suas cambalhotas e caretas, o mestre provava-lhe ordinariamente a sua satisfação por algum presente, como um boneco de bolacha, ou um grande frito de maçã; os dons da sua magnificencia nunca iam mais longe, e Natchès era-lhe muito reconhecido. Não levar pancadas parecia-lhe já uma tão feliz sorte, que o menor presente, junto a este{177} favor, tornava-se inapreciavel. Pobre de espirito, limitado por natureza, acanhado ainda mais pela sujeição, parecia uma machina bastante aperfeiçoada; mas nada revelava n'elle a vida intellectual. A unica coisa que quebrava ás vezes a monotonia da sua escravidão, era da sua parte ataques de teima que espantavam toda a companhia, e que se terminavam, já se sabe, por pancadas. Estes ataques eram uma nova prova da sua fraca intelligencia, porque, é sabido, a teima é o defeito dos burros.

Não se póde imaginar a agitação, a actividade dos saltimbancos nos dias de grande espectaculo. O Hercules despia o velho casacão arruinado, e enfiava uma camisola côr de carne e um vestuario de phantasia, que provavelmente não se parecia nada com o de Hercules. Quando tinha desembaraçado e deitado para traz a espessa cabelleira, e que o fato justo desenhava as formas colossaes do seu corpo, o homem da mão de ferro não deixava de ter uma certa belleza selvagem. Esta belleza, comtudo, não era nada sympathica; era a dos soberbos leões que todos admiram, com a condição de uma grade de ferro os conservar a distancia.

Quanto a Karik, mascarava-se com o fato mais grotesco e não perdia com isso.

O rapazinho, uma vez que começava, obtinha do seu humor trivial uma grande quantidade de graças ordinarias, qual d'ellas mais tola, que mereciam grandes gargalhadas da multidão.{178} O pequeno Valneige acabava ás vezes por tambem rir, não dos ditos de Karik, os quaes a sua innocencia não comprehendia, mas do espectaculo de tantas caras estupidas, que, de bocca aberta, applaudiam as enormes tolices que lhe diziam, e que, ainda em cima, pagavam um vintem.

A pequena Tilly parecia muito bonita quando figurava. A cabeça coroada de rosas, os braços ornados de braceletes, o pescoço rodeado de contas, um corpo decotado, uma saia branca e doirada, muito curta, as meias côr de carne, os sapatinhos azues claros, tal era o seu vestuario. Tinha muita distincção natural, e a delicadeza da sua figura, junta ao encanto do todo, enthusiasmava o mestre quando a via dançar a polka com Adalberto, em quanto que Karik e Natchès tocavam uma musica atroadora, que não era senão grande barulho a compasso.