—Que importa! Escrevi como pude, tudo errado, já se sabe, mas o teu pae poude ler porque me respondeu no dia seguinte.
—Oh! mostre-me a sua carta! só a letra.
—Não percebes que já a queimei?
—Ah! é verdade. Se a achassem, que desgraça! E como era o sobrescripto?
—Isso era a grande difficuldade. Sabia que meu pae ia ás vezes buscar cartas ao correio, e que estas cartas nem sempre tinham o seu nome, mas certos signaes combinados; decidi-me por este meio e consegui. Ah! mas para ir buscar a resposta ao correio de Nantua que trabalho! emfim fez-se.
Agora é esperar.
—Como eu hei de ser obediente quando voltar para Valneige!
—Espero que sim. Teus paes só te davam bons conselhos, é preciso seguil-os. Has de dizer á tua mamã, que sempre te aconselhei bem. Oh! não lhe deixes suppôr que eu sou má rapariga.
—Oh! socegue!
Como o tempo ia passando, Gella poz-se a caminho e apressou o passo. Quando se aproximou, com o seu pequeno companheiro da casa do saltimbanco, ouviu uma grande questão entre o Hercules e o seu filho, que, exagerando{203}
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{205} os principios recebidos, se tinha fartado de mentir e de roubar, abrindo furtivamente a gaveta em que seu pae mettia o dinheiro; a disputa era grande; pragas, blasphemias, pancadas, nada faltava.