—Nunca, disse a criança, olhando para a pobre rapariga. Hei de fallar de Gella á mamã que tambem lhe ha de querer muito.

—Obrigado, meu pequeno, obrigado! ai! quando tu te fôres embora, meu Deus! meu Deus!...

Dizendo isto, Gella olhava para o Céo, como se começasse a comprehender a vontade de Deus, e a criança viu duas grandes lagrimas, que lhe desciam pelas faces. Era a primeira{201} vez que chorava na sua presença. Diante da commoção d'esta natureza tão rude e forte, sentiu-se profundamente enternecido. Ambos estavam sentados sobre a relva no meio de uma grande planicie, onde tudo era socego e silencio. O pequeno pensava no seu papá, na sua mamã, nos seus irmãos e irmãs e tão commovido estava que não podia dizer nada. Ella tambem desejava fallar; mas não sabendo como se havia de exprimir, ousou pela primeira vez pronunciar, diante de Deus e longe dos homens, o nome do prisioneiro e repetiu duas vezes baixinho, como a pequena Tilly: Adalberto! Adalberto!

—Oh! que felicidade! disse o meu nome!

—Querido pequeno, bem cedo será tua mãe quem t'o dirá.

—Bem cedo?

—Espero que sim. Fiz o que pude; agora teus paes que façam o resto. Têem as necessarias indicações para te encontrarem.

—Mas como poude escrever-lhes? Não vejo na carruagem tinta nem penas.

—Ora! é bem facil. Comecei por guardar cuidadosamente um bocado de papel branco, em que um logista tinha embrulhado a fita escarlate para o meu corpete de velludo preto; depois cortei em bico um bocadinho de páu para fazer de penna; mas para ter tinta é que eu não sabia como havia de ser. A tinta faz nodoas, teriam desconfiado d'alguma coisa. Achei{202} que o melhor meio, era fazer um golpesinho no dedo e escrever com o meu sangue.

—Pobre Gella! fez-lhe muito mal?