—Mas a Gella o que ha de fazer para não a matarem? Dizia...
—Eu não corro risco, do momento em que te levarem, quando me não estiveres confiado, no meio de muita gente, por exemplo n'um dia de representação. Não importa, se fiz o que fiz é porque tenho confiança em ti e na palavra do senhor de Valneige. Bem sabes, um pae sempre é pae. O meu é aspero, é verdade, não me faz feliz; mas apezar disso se gosta d'alguem n'este mundo é de mim.
—Deveras? disse Adalberto espantado, porque não podia comprehender, que aquelle homem amasse alguem.
—Admiras-te? Pois ha quatro annos estive eu doente, bem doente, e elle estava como doido, e um dia, talvez não acredites, sentado ao pé da minha cama, vi-o chorar.
—Está fallando sério?!
—É a pura verdade. Ha muitos homens assim na nossa gente. São máos, têem comtudo um lado bom. Mas, disse eu commigo, se previno aquelle senhor, quando elle encontrar seu filho manda prender meu pae, que será julgado, condemnado, mandal-o-hão para os trabalhos{200} forçados, sósinho, desgraçado, e, se fôr eu a causa, morro de certo! Tem-me dado muitas vezes pancadas, é verdade, mas foi elle quem me deu de comer quando eu era pequena, que me livrou dos máos, e emfim é meu pae! Mas agora, que eu tenho a palavra de honra do senhor de Valneige, não receio nada.
—Oh! não; não receie! Meu pae não a atraiçôa! Oh! como estou contente! Nem sei o que digo, parece que até me falta o ar.
—Pobre pequeno, ainda bem que posso proteger-te! Fizeste-me grandes serviços; sem ti ignorava que houvesse um Céo, nunca m'o tinham dito, e do teu Deus nunca me tinham fallado.
—Agora, que Gella o conhece, póde bem servil-o.
—Como queres tu que eu o sirva aqui? Emfim, é talvez servil-o separar-me de ti para sempre. Se tu me esquecerás quando fores feliz?