—Para lhe pedir uma coisa. Lembras-te de eu te dizer uma tarde: meu pequeno, sabes tu o que quer dizer palavra de honra?

—Sim, lembro-me. Eu disse que era muito feio dar palavra de honra e faltar; que um dia em Valneige o papá tinha ralhado com Frederico, por me ter dado a sua palavra de honra de que não faria trapaça ao jogo da bola e{198} tel-a feito. O papá zangou-se muito e disse a meu irmão: Bem se vê que não sabes o que é palavra de honra; quando um homem honrado a dá, está compromettido solemnemente. Se quando fores homem, te acontecer faltar á tua palavra, não te chamarei mais meu filho. D'aqui até lá, responde sim ou não, é quanto basta.

—Conheço essa historia, já m'a contaste e disse commigo n'esse dia: Visto que se educam tão bem as crianças em Valneige, é porque é boa gente; quando dizem sim é sim, quando dizem não é não.

—Oh! de certo, lá em casa é assim. Ninguem mente. Mas, diga-me, o que escreveu ao papá?

Gella hesitou um pouco, depois olhou com bondade para a criança e com um tom grave respondeu-lhe:

—Pedi-lhe a sua palavra de honra de que não faria mal a meu pae; elle deu-m'a e então eu n'uma segunda carta, indiquei-lhe as festas a que havemos de ir, afim d'elle te procurar quando andares pedindo.

—Como! fez isso?

—É verdade. Fizeste-me doer o coração com tudo quanto me tens dito de tua mamã, que faz tanto bem, e d'aquella igreja onde tua irmã, toda de branco, fez a sua primeira communhão. Queres saber? ás vezes chorava de noite e dizia commigo: pois tu, desgraçada,{199} vais deixar este innocente n'um sitio onde elle vê só o mal, podendo salval-o com uma palavra?

—Que boa que é, minha querida Gella! tornarei então a vêr meus paes?

—Sim, has de vêl-os, meu pequeno.