Todos os annos combinava com alguns visinhos irem na mesma carruagem, porque o logar da festa ficava distante dez kilometros. Este anno tinha um excellente meio de transporte; a carroça do senhor Baptista. Ia-se bem saccudido, é verdade, e a velha Manon não deixava de tropeçar, mas afinal chegava-se. O bom do homem, que não tinha nada de divertido, ia simplesmente á feira no interesse dos seus queijos e dos seus arenques, esperando encontrar algum rendeiro rico com quem podesse travar relações. Este anno, coitado! ia sobretudo porque havia tres semanas que tinha insupportaveis dôres de dentes, que o não deixavam{208} dormir, e porque lhe asseguravam que um certo dentista, bem conhecido na feira de M..., os arrancava sem dôr. Estas palavras têem um poder magico sobre o espirito dos camponezes; mas o pobre homem, que de certo ainda não tinha adquirido a elegancia das cidades, tinha comtudo perdido um pouco da sua simplicidade nativa no trato dos cidadãos. Por isso não acreditava senão metade no prodigioso talento de que lhe fallavam.
Em consequencia d'esta falta de fé, demorava a partida de minuto para minuto, achando que era sempre cedo para apparelhar, que o seu relogio se adiantava, que era preciso deixar comer a egoa; depois porque ella tinha sede... Ora, o que querem? os outros iam divertir-se, e elle, no fim de contas, ia a casa do dentista, o que todos nós sabemos não ser caso de pressa.
Josephina, depois de duas horas de espera, julgou ouvir o trote desigual da velha Manon. N'um instante abraça a sua mamã e eil-a na carroça.
—Até que afinal partimos! que felicidade! oh! como eu estou contente e como nos vamos divertir!
Josephina no meio d'estas alegres expansões, olhou para a cara do senhor Baptista. Custou-lhe a conter uma gargalhada. Esta dôr de dentes, justamente no momento em que iam dar cabo d'ella, tentava um esforço supremo e ameaçava uma grande inchação. O desgraçado, para{209}
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{211} conjurar tantos males reunidos, tinha applicado sobre a face direita um enorme parche d'algodão em rama, seguro por um lenço azul atado por baixo da barba. Tinha além d'isto amarrado a cabeça com outro lenço vermelho, e por cima um barrete d'algodão branco, sobre o qual se enrolava como um turbante um terceiro e grande lenço de seda côr de vinho; e apezar d'esta armação ter attingido uma altura respeitavel, o honrado Baptista tinha agarrado por costume, no seu forte boné de lontra, e tinha-o pespegado sobre tudo isto! Imagine-se que effeito!
Os arrancava sem dôr. (Pag. 208.)
Josephina estava espantada. Olhava para a sua velha amiga, a tia Tourtebonne, que fazia todas as diligencias para não perder o seu sério, ainda que o seu bom coração se resentisse dos soffrimentos do seu companheiro de jornada. Como as chicotadas inoffensivas que era preciso dar a Manon de dois em dois minutos occasionassem ao paciente pequenas saccudidelas, que lhe augmentavam a dôr, a boa da mulher tomou sob a sua responsabilidade o animal e o seu tropeçar, e, de redeas na mão, começou a governar. «Hi! hi! anda, anda Manon!» Esta maneira de a animar acompanhada do continuo movimento de braço eram necessarias, para que Manon não parasse de todo; era pacifica mais do que tudo, e não gostava de mudar de logar.
Quanto ao seu dono estava absorvido pelas{212} dôres de dentes, o que é facil de perceber, porque não ha nada que absorva tanto.
Houve antigamente philosophos que negaram a dôr. Oh! de certo que não tinham tido dôres de dentes! O Senhor Baptista tinha muito bom senso para se assemelhar a estes senhores, e não seria elle com certeza quem negasse a dôr. Pelo contrario não se passavam cinco minutos sem dizer ih! ou ai! alguma coisa emfim que attestasse a presença do inimigo. Como era naturalmente laconico, não dizia mais; mas a sua cara dizia o resto. Não sahia de todo aquelle preparo de algodão e de lenço e companhia, senão uma bochecha que parecia mais morta que viva, um olho amortecido, um meio nariz sem expressão e um canto da bocca tristemente descahido, signal d'uma grande desconsolação. Nem pensava no feliz cachimbo, que, com o queijo e o seu companheiro o arenque, fazia o encanto d'aquella tranquilla existencia; emfim não achava n'este mundo senão aquelles repellões!.... Pobre homem!