Josephina, apezar da sua vontade de rir, tinha um coraçãosinho bom e lamentava o senhor Baptista. Quanto á sua visinha teria de boa vontade acceitado metade d'aquelle terrivel mal para alliviar o seu companheiro; disse-lh'o nove ou dez vezes; mas, como era uma coisa impossivel, o pobre homem cortejava-a por delicadeza, ficando com todas as suas dôres.{213}

Chegaram ao meio da feira. Josephina abria os olhos tres vezes mais do que costumava.

Passava esta rapariguinha uma grande parte do tempo no meio d'um lindo prado guardando as vaccas de sua mãe; tinha um viver doce mas um pouco monotono. Dava portanto grande apreço aos divertimentos, e a feira estava tão bonita, tão bonita! Fazia-se tanta bulha! A bulha é a base de todas as festas populares, e não faltava n'esta. Os cavallos, os bois, as vaccas, os carneiros, as cabras, os porcos, tudo isto rinchava, mugia, balava e grunhia sem se querer calar.

Os cães ladravam em todos os tons, e os gallos faziam mais bulha do que todos com os seus continuados e magnificos co-co-ro-cós... Dir-se-hia que estes animaes tinham combinado entre si atordoar a multidão, que, para não perder a superioridade, gritava mais do que todos. Oh! como tudo estava bonito e em boa ordem! Aqui um charlatão, chamava toda a gente para a livrar dos callos; ali uma somnambula via melhor do que todos, ao perto, ao longe, como quizessem, sem oculos, e mesmo com os olhos vendados. Á direita os cães sabios faziam exercicio; á esquerda os macacos faziam rir os homens imitando-os o melhor que podiam. A cada passo um botequim ao ar livre, sempre rodeado de amadores; grande tentação para o senhor Baptista em tempos ordinarios: um copo de vinho nunca faz mal; sabia-o elle bem, e{214} por isso bebia um muitas vezes; mas hoje, coitado! apenas tinha tempo para gemer.

Entre todos estes divertimentos, todas estas distracções, acima de todo este trabalho havia uma coisa que occupava constantemente o espirito de Josephina; era a maneira tumultuosa por que os pellotiqueiros annunciavam que se tinham juntado n'esta feira. Este anno eram ainda mais do que o costume, e a bonita rapariguinha ouvia com ingenua alegria os admiraveis e estrondosos bumbuns! mil vezes repetidos pelo grande tambor e que significavam: Venham depressa, porque vamos começar!

Tinham ajustado tomar os logares na primeira fila a fim de vêr, sem perder nada, os jogos, as danças e as cambalhotas. Josephina esperava divertir-se immenso; mas tinha de se ir contentando com o que encontrava, porque o senhor Baptista, no meio das maravilhas d'este dia, só via as suas dôres de dentes, e a todos succederia outro tanto.

A tia Tourtebonne, como boa conselheira dizia:

Meu querido senhor Baptista, se me quizesse acreditar, procurariamos sem demora a carruagem pintada de encarnado, que tem um tambor adiante, uma trombeta atraz e cortinas aos lados. Uma vez a coisa feita não pensaria mais n'isso e teria ainda um bom bocadinho; que diz?

O pobre homem não se atrevia a desapprovar á sua visinha que tinha toda a razão, por{215} isso não respondia senão: hum! n'um certo tom, que equivalia a dizer: amen! Comtudo fazia o que podia para não vêr por em quanto a maldita carruagem pintada de vermelho, que toda a gente, que não tinha dôres de dentes, via muito bem.

Se lhe diziam: «Olhe, ali á tem!» experimentava no mesmo instante um grande prazer em comprar bolos para Josephina, e extasiava-se diante de algum illustre ventriloquo.