Josephina era cruel; sabia que não se estabeleceriam na feira sem fazer a operação; não pensava portanto noutra coisa, e estendia a vista sobre esta multidão, que enchia todo o campo. Quem procura sempre acha; chegou o momento em que era impossivel deixar de ver a vinte passos a carruagem vermelha com o seu circulo de basbaques, a maior parte d'elles com um lenço pela barba e uma cara de palmo e meio, domo se fosse o costume de rigor para ser admittido ás recepções.
A quarta parte de face, que se via na cara do bom do homem, tornou-se livida em vez de pallida.
—Vamos; senhor Baptista, o que tem de ser seja. Porte-se como um homem. De que tem medo? Olhe que não é coisa do outro mundo.
Estas palavras pronunciadas com firmeza pela tia Tourtebonne animaram o paciente, que com a coragem que póde ter um cobarde envergonhado, dirigiu-se para a carruagem e esperou a sua vez. Cessaram immediatamente as dôres{216} de dentes, o que o fez pensar em voltar para traz; mas tinha-se adiantado muito, ficou por honra de firma.
Ainda que o charlatão não cessasse de declarar com emphase que arrancava os dentes sem dôr, não se sahia das suas mãos sem a cara transtornada e as lagrimas nos olhos. Com effeito toda a gente achava que fazia doer, mas o annuncio não mentia, era pois a clientela que se enganava. Um tinha mexido a cabeça, outro o pé; este estava mal disposto, aquelle tinha tido a imprudencia de comer um quarto de hora antes da operação; alguns tinham desde muito as gengivas em mau estado e todos tinham os dentes apertados. Estas justificações, que o ultimo cliente nunca acceitava, deixavam, comtudo, ao que se lhe seguia um resto de esperança.
O senhor Baptista subiu para a carruagem; houve um momento de silencio. O celebre operador, vestido como um principe estrangeiro, de chapeu de plumas e mangas arregaçadas, absteve-se esta vez de palavras ociosas, e, com ar altivo, preparou-se para vencer pela força o que lhe oppozesse resistencia; era o segredo da sua arte. O senhor Baptista fez depressa conhecimento com este genero de talento, e sentiu o que todos sentem n'este caso.
Não se póde dizer uma palavra; o dente arranca-se porque não póde deixar de ser, mas parece que a cabeça vai atraz d'elle.{217}
O tambor e a trombeta uniram-se espontaneamente para annunciar a toda a gente que o senhor Baptista era o mais feliz dos mortaes; e, com effeito, não se tinha ouvido o grito agudo do pobre homem, mas só um rrran! rataplan! pan! pan! depois uma musica alegre, e mais longe um realejo, que tocava desde a aurora o Galope de Gustavo. O senhor Baptista pagou e desceu depressa, depressa; tão azafamado estava o operador.
O dente tinha sido arrancado; n'este ponto estavam de accordo, mas sem dôr é que não. O senhor Baptista, sempre indulgente, pensou que tinha provavelmente mexido sem querer. Não disse palavra, não proferiu uma queixa, mas, com ar commovido, consolou-se d'este desengano cuspindo todo o caminho; não havia outra coisa a fazer.
Afinal a emoção, a sacudidela, e o Galope de Gustavo ainda em cima acabaram por estonteal-o; a senhora Tourtebonne, como prudente que era, fez com que elle se sentasse.