Bem diverso é o estylo do Sr. Oliveira Martins. Nada de menos grave, de menos pomposo e respeitoso. Elle escreve como fala, e fala como acha. O seu processo é a notação directa dos sentimentos presentes; a sua linguagem, a algebra nua da paixão. Rapida, irregular, tortuosa, brusca, insolente{73} e indecente, burlesca e sublime, composta de palavras que se empinam por se verem juntas, feita de phrases de todos os tamanhos e feitios, galopa ou vôa a sua prosa. Nada de mais agil e vivo. Ás vezes, a suppressão dos elementos grammaticaes produz extranhos escorços, e a phrase contrae-se como um musculo. Outras os pleonasmos batem o pé, e a repetição encrava a convicção, como um martello percutindo um prego. Ás vezes a inversão dá extranhas posturas á linguaguem, e os periodos rugem, crucificados com os pés para cima. A grammatica violada debate-se n'um tetano. As imagens soberbas ou ignobeis pullulam de todos os lados, trazidas dos palacios ou das tabernas, como um rebanho de conscritos arrastados para a batalha. E todo o livro avança, semelhante a um couraçado de combate, replecto do convez ao porão, n'um turbilhão de estrondo e espuma, precipitado pela massa e armado da velocidade, e levando na caldeira abrazada um foco de força e um perigo de explosão.

Esta é a primeira impressão; profundemol-a, completando o juizo litterario pela analyse critica, e substituindo a linguagem imaginosa pela notação exacta, instrumento condigno do trabalho scientifico.

Tres pontos ha a considerar na analyse de um estylo; o vocabulario, isto é, o conjuncto de elementos ultimos do discurso; a syntaxe, isto é, a{74} ordem em que estes elementos estão dispostos para constituirem o organismo da expressão; e as figuras, isto é, os expedientes necessarios para supprir as lacunas do vocabulario ordinario e da syntaxe regular.

Mas antes de mais nada, observemos que o Sr. Oliveira Martins não possue o genio verbal, isto é, aquella facilidade de imitação e invenção de formas da linguagem, que em alguns dos nossos escriptores substitue e simula a intelligencia e a sensibilidade ausentes. Supponho que como os dois grandes historiadores a que o tenho comparado, Michelet e Carlyle, elle teve uma extrema difficuldade de exposição, no principio da sua carreira litteraria; pelo menos esteve muito longe de possuir aquella segurança e nitidez da palavra, aquella capacidade de adequar exactamente a expressão á intenção que caracterisa os verdadeiros temperamentos de escriptor. É porem justo dizer-se que sob este ponto de vista, como sob todos os mais, os livros do Sr. Oliveira Martins manifestam um progresso consideravel. A sua Historia Romana é um monumento litterario. Mas essa lacuna constitucional e o habito da improvisação impedem que as paginas perfeitas abundem nos seus escriptos; e possuindo em alto grau a força e a vida, carece de majestade e graça.

Em primeiro logar, o seu vocabulario não é numeroso; não se manifesta nos seus livros aquella{75} abundancia, que no Sr. Ramalho Ortigão provém de um forte estudo do lexicon, e no Sr. Camillo Castello Branco de uma memoria verbal extremamente feliz. As palavras vagas não escasseiam nos seus escriptos mesmo exprimindo ideias precisas. Com as palavras vagas, os termos improprios que falseiam a expressão e tornam necessaria a decifração. Os vocabulos extrangeiros ou mesmo nacionaes tomados n'uma accepção extranha á lingua lançam manchas desagradaveis na tela do discurso. As expressões synonimicas e as emendas que elle faz seguir ás expressões originaes, parecem indicar que o proprio auctor sente que não exprimiu cabalmente o seu pensamento; e se muitas vezes a accumulação de expressões novas para formular a mesma idéia, manifesta a paixão obstinada e a convicção activa, muitas outras significa sómente a consciente escassez de recursos do escriptor.

Dois typos syntacticos se notam nos escriptos do Sr. Oliveira Martins. Um é o grande periodo regular, de que elle se serve ordinariamente nos seus trabalhos didacticos, e de que se póde observar um bom exemplo no prefacio do Hellenismo e a Civilisação christã. A ausencia de aptidões e gostos oratorios impede que o Sr. Oliveira Martins prime n'esta forma de discurso. E diga-se a verdade, poderiamos percorrer os escriptores portuguezes antigos ou contemporaneos sem encontrarmos muitos exemplares de prosa perfeita, taes como abundam{76} na litteratura franceza. O ar latino da nossa prosa classica póde illudir á primeira vista. Mas quem a submetter á analyse verá que não encontra nella aquelle habito de decompor as idéias e passar gradualmente por todos os seus elementos, que constitue um dos caracteristicos principaes da prosa franceza.

O outro typo syntactico é o inciso, a phrase curta e entrecortada, offegante. Ella se obtem suspendendo continuamente o pensamento, supprimindo os desenvolvimentos das idéias, e até as particulas grammaticaes, pronomes, artigos e conjucções. A phrase elliptica tem movimentos convulsivos de ave decapitada, e os elementos do discurso trocam vivamente os logares como os raios de uma roda. Esta é a forma adequada a um temperamento litterario como o Sr. Oliveira Martins. É nesta forma que elle vasa as suas descripções e narrações. As ellipses, as repetições, as inversões, a ausencia completa de todas as figuras de symetria, conspiram no mesmo sentido, e não é difficil mostrar como sendo os sobresaltos da machina nervosa irregulares e instantaneos, é esta a prosa que convem ao escriptor e á obra que analysamos. Leia-se esta descripção do incendio nos armazens de Gaya. «Posto o fogo ao rastilho, começou breve a pyrotechnia, allumiando a noute. Começou por uma explosão tremenda, donde sahiram labaredas e rolos de fumo rapido. O vento animado impellia a{77} chamma. E as pipas estalando troavam como canhões. Singular batalha! O vinho rolava em cachões, da praia sobre o rio que ia tinto de vermelho como sangue. As labaredas subiam e a vasta seara de fogo batida pela aragem, ondeando, crescia, andava. Incendiados, como lavas de um vulcão, desciam ao Douro, os liquidos espirituosos e chocando as aguas repelliam-nas, entrando nellas como um cabo. Parecia uma tempestade geologica. A agua do rio fervia, fumava; e fluctuando sobre a agua, vogava á mercê da corrente um lançol de chammas rubras.» A phrase tem a velocidade, a mobilidade, a plasticidade da chamma, e o foco moral donde ella brota não é menos ardente e vivo.

Os outros expedientes litterarios convergem no mesmo sentido. E antes de mais nada, a ausencia das figuras de dicção, que estabelecem uma symetria visivel e um equilibrio extrinseco do discurso, revela um espirito pouco sensivel á harmonia verbal e ás seducções da rhetorica. O epitheto, esse instrumento de que tanto se abusa, é raro, e quasi sempre pittoresco e novo. Mas os tropos abundam, como convem a um estylo que é a manifestação de uma alma audaciosa e ferida vivamente pelos aspectos das cousas. Ás vezes n'uma fria dissertação de direito publico ou de economia politica uma imagem fulgura magnificamente, como uma papoula{78} n'um trigal. Assim depois de expor o admiravel regimen de federação municipal que consolidava e completava a conquista romana, exclama num rapto de poeta: «Roma é a capital: está no pincaro da montanha ideal em cujas encostas por estradas espiraes se desenrola a procissão das gentes e cidades que sobem». Assim depois de pintar a angustiosa situação do paiz na primavera de 47, escreve referindo-se ao abuso da emissão fiduciaria, «Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e fluctuando, as notas, como os trapos de neve caindo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.» E as metaphoras como estas abundam ou magnificamente desenvolvidas n'uma pagina, ou ardendo concentradas n'um verbo e n'um epitheto.

A mesma vehemencia de imaginação e paixão produz e explica as apostrophes ao leitor e aos personnagens da sua historia, as interrogações, as exclamações, as reticencias, as prosopopéias, os bruscos saltos, a falta de clareza, as referencias a factos que se calam e que o escriptor julga conhecidos. Esta energia de habitos vai tão longe, que se exerce sobre porções dos seus livros que parece deveriam escapar a ella. Copio do Portugal contemporaneo estes titulos de livros e capitulos: Fuit homo missus a Deo; Sic itur ad astra; O principio do fim;{79} Væ victis; Os impenitentes; A raposa e suas manhas. Quando lança um olhar retrospectivo sobre o conjuncto da sua obra, não encontra uma serie de idéias precisas, mas um tumulto de visões inflammadas. Por isso escasseiam os summarios, os resumos e todos os expedientes destinados a precisar as doutrinas e fixal-as na memoria. Este escriptor faz imagens e sarcasmos até nos indices.

Tal é esse estylo: irregular, tortuoso, familiar, apaixonado e vivo. Para o conhecermos cabalmente não recuamos perante a minuciosa analyse das formas grammaticaes e dos expedientes litterarios, mas fizemol-a como psychologo e não como rhetorico. O espirito philosophico é o dom da analyse e da synthese, e a sciencia deve reunir como a aguia as garras penetrantes ás largas azas.{80} {81}