Certamente não é a belleza physica que se impõe{63} á sua admiração. Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e o esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com aquillo que percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa intelligencia. Por isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em frente da magnificencia da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo das forças naturaes, não são visiveis. Se o Paganismo significa o amor da vida corporal e o predominio da actividade instinctiva, em contraposição com o Christianismo, considerado como uma reacção espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, não se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a energia das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão. Não é christão porque é mais largamente humano.
Em parte nenhuma isto se verifica melhor do que na sua concepção do amor. A psychologia das paixões mostra que este sentimento é o mais complexo, e portanto o mais instructivo documento que se póde explorar para a intelligencia de um coração. Não temos do Sr. Oliveira Martins uma colleccão de poesias lyricas onde possamos estudar todos os cambiantes, de que um tal sentimento se reveste ao passar pelo seu espirito. Mas n'essas admiraveis paginas finaes da Historia romana, em que o philosopho resumiu as suas idéias sobre a{64} Vida, e o poeta poz a nú a sua alma, a confissão involuntaria vale por um documento especial. Ora de todos os elementos que podem entrar na composição d'esta paixão, elle só vê dois: o instincto animal e a compaixão. A energia dos seus instinctos moraes regeita o primeiro como inferior, e a mulher apparece-lhe não como um arrebatamento dos sentidos, uma satisfação do orgulho, um objecto de posse, um assumpto de analyse, uma visão divina imposta á admiração do artista, mas como um ente digno de piedade e necessitado de protecção. Alguma coisa de viril e triste caracterisa esta concepção. Ella é propria dos homens em que o dom da analyse perspicaz está ligado a vigorosos instinctos moraes.
É que a energia da affirmação moral dá a chave d'este caracter. Esta energia de affirmação é tanto maior quanto no espirito de que nos occupamos ella não é uma força cega, mas coexiste com a vasta intelligencia comprehensiva e a grande curiosidade activa. Sentimentos e idéias tudo está nelle submettido a uma forte disciplina e subordinado a um plano determinado por uma livre resolução. Um vivo sentimento da dignidade humana, um amor apaixonado da justiça, brilha na sua Historia. Em balde a sua penetrante intelligencia lhe mostra o mechanismo dos factos sociaes e a majestade das causas permanentes. A energia da sua sensibilidade persiste a despeito da efficacia da analyse, e n'elle a{65} philosophia não annulla o sentimento moral. Vinte vezes nas suas narrativas os movimentos de admiração ou colera, de indignação ou compaixão, cortam a exposição dos successos. Bem que veja a fatalidade do curso dos acontecimentos, não pode resignar-se á exposição desinteressada e calma. Padece e triumpha com os seus personnagens e sobre tudo admira com vehemencia os seus heroes. É preciso ler no Portugal Contemporaneo a historia de Manoel Passos para ver como a energia de uma qualidade estructural resiste a toda a acção da cultura, e reapparece nos momentos decisivos. Este profundo psychologo, este historiador que explica os conjunctos pelas causas, pára de repente, soltando um applauso ou lançando um sarcasmo. A grande curiosidade indifferente que considera as almas como theoremas, e as sociedades como systemas, e que não vê no mundo senão um mechanismo a explicar, não é a forma propria da sua actividade mental. O Sr. Oliveira Martins está isento d'esta magnifica e perigosa exageração, pela sua robusta saude moral, pelo equilibrio estavel das suas faculdades. Incapaz de ver no Universo um ser divino a adorar, ou um simples mechanismo a comprehender, igualmente afastado da sensibilidade religiosa como da sensibilidade philosophica, escapa ás duvidas e incertezas inherentes á falta de solução do problema da Vida, pela energia da vontade e pelo habito da acção. E em quanto o{66} seu amigo Anthero de Quental, impellido pela intemperança desmedida dos seus desejos, pela grandeza e incoherencia dos seus instinctos metaphysicos, rolava pela ladeira do pessimismo ao abysmo da negação, o Sr. Oliveira Martins não mais feliz do que elle na solução dos problemas da Existencia, appellava para a força intima da sua alma, e resignava-se a acceitar a vida sem protestos vãos nem gigantescas indignações.
Comtudo seria um erro consideral-o um stoico. Para sel-o, falta-lhe aquella perfeita afinação da intelligencia com a vontade, que segundo a sua propria definição constitue o caracter. Herculano, poeta da Energia, pôde sel-o; não o Sr. Oliveira Martins, psychologo por officio e que tem visto a vida e a historia com olhos de philosopho. A capacidade de fazer reviver em si os alheios sentimentos e paixões, e o habito de os comprehender e explicar como factos naturaes, determinados por causas, se não é bastante para abafar n'elle os movimentos do coração, e leval-o a observar o mundo com a indifferença immoral dos artistas, impedem contudo a faculdade da convicta approvação ou reprovação que constitue o fundo do estoicismo. A Justiça é para elle um amor, não um dogma.
A palavra que define a alma do estoico, é o orgulho, diz o Sr. Oliveira Martins. O orgulho transcendente, isto é, o sentimento proprio de quem julga possuir a verdade absoluta e resolve applical-a{67} com um rigor absoluto. Bem diversa é a palavra que resume um caracter como o do Sr. Oliveira Martins. Esta é a Ironia, resultado natural da superioridade intelligente. A Ironia é tambem uma especie de orgulho, mas bem differente do estoico, porque é temperado pela piedade e pelo desdem. São estes os sentimentos que apparecem cada vez mais claros nos seus ultimos livros e tem a sua mais perfeita expressão no retrato maravilhoso de Cesar. É a Ironia aquelle estado da alma, que nelle provocam e confirmam dia a dia a experiencia e a cultura, o sentimento com que elle se mune para a travessia da Historia e para a campanha da vida. Foi este o sentimento que lhe dictou estas linhas á portada do seu livro mais original e que mais apaixonou a critica: «O exame dos nossos tempos apenas lhe provocou (ao auctor) expressões d'aquelles sentimentos que são compativeis com a serenidade da critica: uma ironia sem maldade, uma compaixão sem orgulho, pelas repetidas miserias dos homens; ás vezes, uma sympathia e um respeito singulares por certos individuos excepcionaes. Ironia, compaixão, sympathia, respeito,—moderadas commoções, com que é licito acompanhar o estudo, sem prejudicar a lucidez da vista—não impedem comtudo, que acima d'estas impressões fugitivas se colloque o profundo, inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino.»{68}
A estructura do nosso espirito revela-se na especie do nosso ideal, e a nossa concepção da ventura deriva da nossa concepção da vida. Todos os sentimentos que no Sr. Oliveira Martins desperta a realidade e todas as opiniões que elle tem sobre as cousas, estão resumidas nas paginas finaes do seu ultimo livro (Historia Romana). É alli visivel o que ha de mais importante na sua alma, posto a nú por um psychologo, mestre na arte de pintar caracteres. O que elle pensa da paixão e do dever, da sciencia e da acção, do Universo e do eu, a sua idéia da vida e o seu ideal da vida, está expresso nesta curta pagina, em traços breves e profundos, a que a concisão do escorço exalta a energia. E não vejo melhor modo de fechar esta analyse, que é uma tentativa de autopsia moral, do que copiar este retrato que equivale a uma confissão espontanea.
«Aquelle que, sem ter de esmagar desapiedadamente os sentimentos e paixões da sua natureza, sem ter de partir a mola interior que o torna um ser vivo, consegue mitigar, moderar, ponderar ou equilibrar os impulsos do seu sangue com os dictames das suas idéias, sanccionando paixões e pensamentos com a luz inextinguivel dos instinctos moraes e do senso esthetico; olhando para si proprio e para as angustias, para as dores e para as feridas da sua vida com uma commiseração vizinha{69} do desdem; olhando para o proximo e para o mundo, sem desprezo nem orgulho, mas com a ironia caridosa que se deve a todas as cousas involuntariamente inferiores; contemplando finalmente com uma curiosidade placida e discreta o nevoeiro dos mysterios e problemas que, sondados, endoudecem, e de que é mister fugir, como dos abysmos cujas vertigens hallucinam ou embrutecem; esse homem, por fóra activo, por dentro como que apathico, por vezes, e só por vezes, atacado de tedio, mas sabendo que não deve nem póde aborrecer a vida: esse homem é o unico verdadeiramente feliz.... Ser feliz depende de um acto da intelligencia e da vontade, independentemente das circumstancias exteriores da vida.»{70} {71}
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O ESCRIPTOR]
Habitos de intelligencia e movimentos de sensibilidade, tudo se reflecte nos seus processos de escriptor. Como um cardiographo delicado que regista e conta as mais imperceptiveis pulsações do espirito, assim é o estylo. Tão sómente pela analyse d'elle podiamos chegar ás conclusões a que nos levou o exame directo das opiniões e paixões; feito este, as paginas que se seguem só podem confirmar as verdades que se enunciaram e este capitulo, é menos uma indagação do que uma prova.
Que especie de estylo é esse? Um escriptor de imaginação oratoria e gostos decorativos como o Sr. Latino Coelho, exprime-se n'uma linguagem adequada pela sua regularidade e sumptuosidade ás aptidões e tendencias do espirito que a emprega, e ás necessidades e utilidades do fim para que se destina. Leia-se o seu derradeiro discurso. Os vocabulos graves como fidalgos e compostos como{72} hallabardeiros, as immensas phrases roçagantes comparaveis a reposteiros de damasco, a amplitude e disciplina da syntaxe, a abundancia e efficacia das incidentes, a extensão e o aprumo dos periodos, o predominio do pensamento abstracto sobre a imaginação pittoresca, a perpetua representação do thema e a perfeita convergencia das provas, a unidade no todo, a proporção nas partes, a equidistancia nos termos, e a uniformidade na marcha do raciocinio, a majestade curul e a graça talar do discurso, revelam um homem apto e propenso para a prosa regular, a dissertação erudita, o elogio historico, a oração academica, e para todos os generos que requerem o gosto da pompa e o sentimento da gravidade, a correcção, a riqueza e a ordem, o respeito continuo de si e dos outros, uma especie de prodigalidade elegante e de arte sem nervos, a preferencia dada á erudição sobre a sciencia, e á rethorica sobre a poesia, a capacidade das idéias geraes exercendo-se em logares communs, qualidades que manejadas por um talento superior e postas ao serviço de um grande interesse, podem produzir verdadeiros monumentos litterarios.