Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira Martins encontra na realidade dois principios, um necessario, outro fortuito. Quanto ao primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente; e investe-o de certeza absoluta; e no fim do seu livro a Anthropologia escreve o seguinte: «A logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e todos os progressos passados ou vindouros da anatomia do cerebro não alteraram, nem alterarão uma linha só do systema das suas leis. Podemos affirmar com afouteza que o que torna certa para nós uma proposição, a tornaria egualmente certa para intelligencias tão bem munidas de conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel capacidade organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com algumas circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser diversa da que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria affirmativa nos revela uma intelligencia que por natureza ou por systema, se não deixa immergir nas nevoas da duvida. Quanto á admissão de um elemento fortuito na realidade, é conveniente observar que{56} o Sr. Oliveira Martins não só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito nas suas narrações e deducções elle foge ás explicações que se contentam com uma só causa; as suas previsões são cheias de restricções. Pegar n'um trecho da realidade, despil-o de tudo quanto for accessorio, decompol-o n'um pequeno numero de elementos constitucionaes, referil-os a um pequeno numero de causas simples, subordinar todas estas causas a um só principio explicativo que é razão sufficiente de todo o grupo estudado, partir do trabalho feito para formular previsões imperiosas semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr. Oliveira Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os pontos de vista, não poupa principios novos para explicar novas formas de existencia, foge de theorias demasiado simples, e quando formula uma lei só admitte a sua futura realisação sob certas condições, abstendo-se de uma excessiva confiança na sciencia como explicação do presente ou previsão do porvir. Sem tomar as interminaveis precauções, nem ter a delicadeza infinita de um Ernesto Renan, por que lh'o não permitte o temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua prudencia é grande e seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e contumaz{57} espirito de improvisação. Assim como é, não se torna porém difficil mostrar a relação que prende os seus habitos d'intelligencia á sua concepção da realidade.
Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e as tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de indagação. «Não bastam á historia, diz elle, a observação e o systema classificador, assim como á sua lingua, não bastam a precisão e a clareza; é mister sentir e adivinhar e por no estylo a vida e o calor proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O historiador não reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito o raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister sentir e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de preferencia. Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia. Mas as pessoas versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de inventar: Ou se parte da observação das causas e por um laborioso processo de raciocinio se sobe aos principios mais geraes que as explicam, ou por uma immediata e impetuosa improvisação se descobrem estes mesmos principios sem passar por todas as intermediarias logicas que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas classes de intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, outra predestinada para a perfeita{58} prova efficaz, e que mutuamente se completam, porque se uma é a invenção, a outra é a demonstração, o Sr. Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos antes como um poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos de que trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por adivinhação, não uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de descobrir por meios naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de verdades que seria lento e penoso investigar pelo raciocinio ordinario. O nosso auctor pertence, salvo as differenças de grandeza, a essa classe d'espiritos, de que são excellentes exemplares Michelet na França, Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos Allemães. É antes um poeta, do que um orador. Porque os attributos proprios da razão oratoria, o instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das verdades claras e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade uniforme do discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não são visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos, a veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o emprego da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e exposição, saltam aos olhos de quem o{59} estuda. Este genero de espirito é fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos erros frequentes, e nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins.
D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr. Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o gosto da prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se observarmos que a prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas ainda um elemento da sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle se contenta com expor as idéias, muitas vezes novas, sempre interessantes, que lhe occorrem nas suas explorações atravez da Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e tornar evidente aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia de provas é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos. Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos conjunctos, elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito final que deseja, e nos seus livros a harmonia do todo garante a veracidade das partes. Mas salvo esta garantia que é commum ao romance que se imagina, como á historia que se narra, nada merece nas suas obras o nome de demonstrado. Nem a immensa accumulação dos factos{60} averiguados, nem a enumeração completa dos documentos compulsados, nem a discussão e a critica das fontes exploradas, vem dar á sua narração o cunho da certeza. Entrando num assumpto vai direito ao amago d'elle, e depois de traduzir a viva impressão recebida, com uma abundancia extrema de pormenores sensiveis, n'um quadro que se grava na memoria, passa a atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem procurar convencer o leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. No seu desdem de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a evidencia é a atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. Nenhum dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido com cautela.{61}
[IV
OS SENTIMENTOS]
Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade; esta não é menos interessante do que aquella.
Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas são numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que seja o assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel sobretudo pelo tom do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou theoria, tudo quanto escreve é animado por um sopro quente de commoção sincera. Nenhuma idéia lhe apparece como um simples objecto de comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de impulsões.
Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de relance, para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande como a sua constancia é perfeita. Vehementes sempre,{62} violentas muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um estado habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados á sua capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes, dão a este historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista um verdadeiro poeta.
Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita approximação que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua qualidade, isto é a especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.
Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da realidade, a alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu espirito. A gravidade e a tristeza que elle considera como qualidades da alma portugueza, são-no tambem da sua mesma alma. Se a dor é um maximum de sensação, a extrema sensibilidade é um principio de soffrimento.
Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia de lhe governarem a actividade.