Como um poeta e como um geographo. Não só as suas paizagens são sentidas, mas ainda pensadas. Ellas são para elle não só fontes de emoção, mas resultados de forças, constituidas em systemas naturaes pela communidade das causas que as determinam, e pela identidade de effeitos que provocam nos espiritos sobre que actuam. São poemas que se leem, effeitos que resultam, e meios em que se vive. Assim, depois, de ter descripto a largos traços a paizagem italiana, resume: «Ao sul da Italia reinam os vulcões, ao norte imperam os rios; além o constructor da terra é o fogo, aqui a agua.» Leia-se na Historia de Portugal esta descripção do littoral alemtejano.

«As aguas estagnam ou escasseiam nos baixos, as populações definham. Ou torradas pelo arido suão que os areaes ardentes não podem suavisar, e sem montanhas que obriguem os vapores do mar{46} a condensarem-se, ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe numa fermentação permanente, as populações amarellidas e magras definham, curvadas pelo mortifero trabalho das marinhas de sal, ou da cultura do arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além, copiosas chuvas e uma humidade criadora; aqui, o ar secco (500 a 700 mill. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade 30 a 80%), duro e carregado de emanações mephiticas. Além uma temperatura branda, aqui um calor excessivo (med. 17°). Além uma população exuberante; aqui as solidões e os areaes nus, matisados pela traiçoeira cevadilha, e pelo aloés orgulhoso, levantando com imperio o seu pennacho de carmim. Além homens laboriosos e familias; aqui esfarrapadas tribus em choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de fogo, mulheres esqualidas, crianças verde-negras, homens na indifferença da desolação, ou na vertigem do crime!» Eil-o que penetra na paizagem fazendo reflexões de geographia e meteorologia, munido de um udometro e de um hygrometro. A imaginação não fica abafada sob os dados numericos e technicos, e o quadro com ser instructivo não deixa de ser artistico.

Dos dois caracteres que notamos nas paizagens do Sr. Oliveira Martins, o ser uma transcripção de emoções e o ser a explicação de um mechanismo o{47} ultimo predomina no trecho que acabamos de citar, o primeiro no que antes citaramos; ambas apparecem n'um justo equilibrio no que passamos a citar.

«Aquem Tamega o scenario muda. A humidade cria em toda a parte vegetações abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de plantas; mas como o solo é breve, como a rocha afflora em toda a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formados nas anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o carvalho um pygmeu, enleado ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra da natureza, numa região onde o vinho não amadurece: o acido picante dá-lhe uma semelhança das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo caracteres tambem semelhantes aos dos bretões e flamengos. A vegetação de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades implacaveis da população abundante, produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pygmeus decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No{48} meio d'isto formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, immundos atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um ceu ennevoado quasi sempre, pisando um chão quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos não podendo despegar-se da terra como que se confunde com ella; e com os seus bois, os seus arados e enxadas forma um todo, donde se não ergue uma voz de independencia moral, embora a miude se levante o grito da resistencia utilitaria. A paizagem é rural não é agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas espessas d'arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu de certo a ausencia de um largo folgo de ideal, de uma viva inspiração de luz: apenas aqui e acolá, no meio da monotonia da côr dos milhos, um canto do alegre verde do linho, vem lembrar que tambem no coração do minhoto ha um logar para o idyllio infantil do amor.»

Se eu quizesse resumir o que penso das paizagens{49} do Sr. Oliveira Martins, diria que ellas revelam uma percepção mediocre da linha, e uma percepção maior da côr, um sentimento vivo dos movimentos, uma visivel tendencia para traduzir os aspectos physicos em impressões moraes, e uma aptidão activa para explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes; traços estes que dão ás suas paizagens o valor de um elemento da Historia. Ellas são productos da imaginação psychologica e da razão abstracta do auctor, e depois de termos largamente examinado a primeira estudando os seus retratos, vamos analysar a segunda, estudando as suas theorias.{50} {51}

[III
AS THEORIAS]

Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o seu methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas idéias geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que queira ter uma percepção clara da razão do escriptor que analysa.

Á portada do seu livro O Hellenismo e a Civilisação christã ha uma theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a formulou. É a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como em presença da realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo caracter eminentemente concreto que ella apresenta. A infinita complexidade propria das cousas e que imprime a cada uma um caracter de individualidade, não escapa á sua observação.{52} Na sciencia, pensa elle, o necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É certo que o Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o milagroso, que justamente regeita como irracional. Mas admittindo ser impossivel explicar um caso qualquer na sua totalidade, elle introduz um elemento d'ignorancia mesmo n'aquella porção da Realidade que é confessadamente do dominio da sciencia positiva. É isto que a sua notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez propria das operações abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando series e ligados entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas series determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o encontro das series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador se deve limitar a descrever, abandonando aqui a razão abstracta, instrumento adequado á descoberta das leis geraes, pela imaginação poetica, visão sufficiente da existencia concreta.

Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta, não posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da noção de Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se considere o Acaso como ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de contingencia no encontro das series naturaes expressas{53} por essas leis, significa sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A previsão dos casos futuros, aferidora da solidez das verdades adquiridas, torna-se tão impossivel n'um universo em que a ausencia de causalidade implica uma constitucional e incuravel anarchia, como n'um mundo em que os factos apparecem, sim, ligados por um nexo abstracto de causalidade, mas em que as cousas são aggregados contingentes, resultantes da intercorrencia de series independentes. A coherencia parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada pela ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema, resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o mundo concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma tal doutrina fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque occorrem ás vezes á penna do Sr. Oliveira Martins expressões singulares, que levariam a suspeital-o de scepticismo intellectual, se o corpo das suas opiniões não desmentisse uma tal hypothese, e se o proprio auctor não corrigisse o que as suas expressões possam conter de excessivo. Copiarei do prefacio do Portugal contemporaneo estas linhas para exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue a{54} admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um dogmatismo energico.

A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro; para que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela affirmação de uma solidariedade estructural entre as partes e de uma unidade systematica no todo universal. Affirmação esta que tem o seu fundamento quer na doutrina da communidade d'origem e identidade latente dos elementos da Realidade, quer na philosophia que vê na idéia de Systema como no conceito de Causa formas condicionaes do pensamento. Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. Oliveira Martins não se privava do direito de se conservar n'uma prudente reserva em frente da esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe seria facil motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o espirito de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de elementos que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira que esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada nestas duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á construcção da sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda recorrer a principios subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo enuncial-os. Diga-se porém que a{55} noção de jerarchia de causas e a comparação entre grandezas de forças são instrumentos adequados á resolução do problema.