Mesmo assim é nos retratos que elle triumpha; vastos como quadros, ou concisos como medalhas vêem-se pendurados a todos os cantos da sua obra. Pinta-os ás dezenas, cunha-os aos centos. Na Historia da Civilização Iberica é Camões, é Colombo, é Loyola; na Historia de Portugal são Affonso Henriques, Pedro o Cru, o Condestavel, o Infante D. Henrique, Albuquerque, D. Francisco de Almeida, D. João de Castro, o Principe perfeito, D. Sebastião, o Restaurador, o Rei magnanimo, o pobre D. João VI; no Portugal Contemporaneo, Saldanha, Palmella, D. Miguel e o Telles Jordão, Mousinho, Rodrigo, Cabral, os Passos e tantos. Com dois traços ou com duzentos, o personnagem apparece sempre vivo, n'um escorço fugitivo ou n'uma longa analyse, com uma verosimilhança que garante a veracidade. E não só esta imaginação é psychologica, mas realista: ella se compraz não só na pintura das opiniões e paixões, mas tambem na{18} representação dos pormenores corporaes e das circunstancias triviaes. Como psychologo, elle sabe que as grandes forças presentes em cada individuo, e que lhe determinam a biographia, se revelam não só no mechanismo das idéias e no jogo das tendencias, mas ainda nas pregas do vestuario e nas rugas do sorriso; como escriptor conhece que só o traço sensivel provoca a visão, e que a arte de pintar com a palavra, é a arte de evocar com a palavra. Assim elle verá a gaguez de D. Pedro, a surdez de Mousinho, a cabeça felina de D. João II; o peito constellado de Saldanha, a face quadrada de Rodrigo, o eterno charuto de Palmella; os habitos, as doenças, as idiosyncrasias mais furtivas apparecem daguerreotypadas por uma imaginação e estampadas n'uma prosa que tem a complexidade e a velocidade das operações vitaes.
Psychologica e realista, esta imaginação é completa? Um romancista como o Sr. Eça de Queiroz prima na pintura das sensações corporaes e das paixões animaes: o cio, a gula, o egoismo brutal e a intriga trivial, a cobiça e a vaidade, a bondade ingenua e a maldade machinal, quasi que exgottam o seu reportorio; a população dos seus romances é composta de personnagens medios; se uma vez n'um livro que é uma confidencia elle pintou uma alma fóra do commum, foi procedendo á maneira dos lyricos,{19} transcrevendo as suas proprias emoções; Carmen Puebla é o proprio romancista com o vibrar pungente dos seus nervos, e os fremitos da sua furiosa e dolorosa sensibilidade; mas o auctor do Primo Bazilio nunca escreveu um romance como Louis Lambert; para um vôo tal são precisas as azas musculosas do genio cosmopolita e androgyno de Balzac.
O Sr. Oliveira Martins conhece perfeitamente as raizes inconscientes e physicas da vida superior do espirito, e mostra-as sempre que precisa, bem que sem as minudencias do romance, porque pinta a fresco sobre a parede da historia; mas vê com lucidez egual a florescencia culminante da razão e da moralidade. Elle retrata tão bem o fundador do jesuitismo, como o filho da lavadeira. O genio é-lhe tão familiar como o instincto; e não vejo melhor maneira de cerrar esta analyse da face mais importante do seu espirito, senão transcrever as paginas magnificas que elle escreveu sobre Herculano, e reproduzir, depois da figura do rei que com o punhal nos fundou a nacionalidade, o vulto do escriptor que com o seu genio, incompleto mas poderoso, nos iniciou a historia.
«.... A palavra que o retrata é o Caracter, porque n'elle a vida moral e a intellectual eram uma e unica,—o contrario do sceptico, não raro santo, o proprio do estoico, não raro obtuso.{20}
«Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na Antiguidade, e não na vaga accepção moderna. Não é a intemerata vida, não é o desprezo dos bens mundanos, o odio, a ostentação vã, a desabrida recusa de titulos, de honras, de logares que em si constituem o Caracter; embora a repugnancia pelas cousas mesquinhas seja consequencia indispensavel d'esse modo d'existir que essencialmente consiste na afinação perfeita das regras da moral e dos principios da intelligencia, da vida do cidadão e da existencia do philosopho. O typo do caracter á antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente define a physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu crescendo até dominar nos ultimos annos,—quando as licções successivas do mundo, nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos do que em parte alguma em Portugal; quando os desenganos do mundo o degradaram para o exilio,—não como um martyr, mas como um homem, que protestando sempre, se não converte, nem se corrompe.
«Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de Herculano esse genero aggravava-se com effeito por varios motivos: já pelo seu temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel moral da sociedade portugueza, já pelo saber consideravel systematisado pelo philosopho, e sem duvida alguma desproporcionado para a{21} illustração media do paiz em que vivia. Olhando as miserias alheias e a alheia ignorancia, por modesto que fosse—e não o era—via-se muito acima como homem e como sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores ineptos a quem não dava importancia, embora a sua bondade os não fustigasse, o fazia inconscientemente orgulhoso: porque nenhum orgulho nem pedantismo tinha para com todos os que via crédores de attenção e respeito.
«Do accordo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem para as soluções mysticas. Esse pensamento e o individualismo, cujo traço fundamental consiste na idéia de que o homem é em si um todo indiviso e completo, e a unica verdadeira realidade da sociedade; a idéia de que a razão humana é a fonte do conhecimento certo e absoluto, a consciencia a origem da moral imperativa,—a liberdade, portanto, a formula da existencia social. D'este modo de ver as cousas nasce aquillo a que podemos chamar o orgulho transcendente,—que os antigos estoicos disseram Caracter, quando pela primeira vez essa fórma do pensamento appareceu systematisada em doutrina.
«No revolver da agitada vida, em que se achara, iam pouco a pouco reunindo-se, como que crystallizando, os elementos da futura, distincta e typica individualidade. A nobreza e a ideal rectidão{22} do seu espirito tinham na sua profundidade o motivo d'uma systematica cegueira para pesar e medir as cousas reaes com a fria imparcialidade d'um critico, ou com a caridade do santo. Com o seu metro absoluto e integro, Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de achar aquelles homens que o seu estoicismo desenhava, aquelles raros, dos quaes elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra com os homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e caprichos, dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos instrumentos d'elle. Perante os homens, o santo tem na piedade uma intima força: a coragem que não abranda; tem o enthusiasmo que o move, e a caridade que explica e lhe faz comprehender, em Deus, as fraquezas e as miserias da terra. Combate, pois, sem recuar, levando nos labios a palavra de uncção, e o sorriso d'uma ironia boa, ao mesmo tempo cauterio e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era elle e nada mais além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrajes são profundos e agudos como os que expulsaram da politica,—e tambem das letras,—Alexandre Herculano, o estoico repetindo a historica phrase do Africano, suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o Caracter apparece em toda a sua pureza.{23}
«Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma incompleta doutrina. Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si, que foge a um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a differença dos tempos fez com que no suicidio de Herculano não entrasse o ferro como entrou nos suicidios estoicos da Antiguidade. A vida assim coroada, o homem assim transfigurado n'um typo, e a sua palavra e o seu exemplo n'um protesto, superior ao mundo e ás suas fraquezas, ficam aureolados com o forte clarão dos heroes, lume que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia a derrota e indica o porto.»
Marcado com firmeza e analysado com perspicacia o facto capital d'este espirito, o critico passa a estudar-lhe as origens, porque sabe que nos homens cultos a educação é uma segunda natureza. E no caso presente, como succede quasi sempre na historia dos homens fóra do commum, a cultura concorda com o temperamento e exalta o valor das qualidades innatas. O estoicismo ingenito, exasperado pelo kantismo apprendido, determinam o corpo das suas opiniões sociaes, politicas, religiosas e economicas, e depois de fundir as idéias ao pensador, fabricam o estylo ao escriptor. O Sr. Oliveira Martins considera-o sob todos estes pontos de vista com uma lucidez de expressão e uma{24} nitidez de comprehensão, que surprehendem tanto mais que o nosso critico discorda do auctor que explica, a ponto de combatel-o. Esta sagacidade é ainda mais notavel no curto juizo sobre as qualidades da prosa de Herculano, quando se pensa que elle é emittido por um homem que não prima pela posse d'aquillo a que cabe rigorosamente o nome de dotes litterarios.