«Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios,—liberal e socialista, ou{29} individualista e collectivista,—era indifferente a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se sente n'um throno, n'uma poltrona, ou n'uma tripeça». Mas essa questão da republica ou da monarchia, é para elle um problema não só historico, mas tambem religioso.
«Pondo de parte a questão de opportunidade no momento d'uma crise, a republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça que estanceiam ao occidente educadas pelo catholicismo que na pureza da sua indole é o typo da monarchia representativa.»
«A tradição religiosa—ou antes aquella tradição religiosa d'um catholicismo liberal inventada pelo romantismo,—servia, pois, ao philosopho para temperar o seu individualismo, para o conciliar com um resto de auctoridade social consagrada nas prerogativas do throno representativo. De tal modo se combinava o racionalismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina um caracter d'individualidade original, depois do ensino, apenas racionalista de Mousinho da Silveira.
«Tambem entrava ao lado da educação, o temperamento para acabar de afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus kantista não bastava á sua indole peninsular.{30} A imaginação pedia-lhe a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava que quer que é d'affectuoso e meigo,—a doce caridade catholica; e o bom-senso exigia o culto e a pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde a comprehendel-o fóra da caridade pratica, não via na religião mais do que uma Egreja,—instituição e disciplina....
«A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia d'um espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o Deus da Harpa do Crente é um ser eminentemente livre que por um acto de vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a divinisação do estoicismo. E como todos sabem por quanto esta antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario mostrar desenvolvidamente como e até que ponto Deus era para Herculano o Deus christão.
«Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres phisionomias. A primeira, official e grave, são os seus trabalhos historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem affectação quinhentista, se desenvolve alimentado pelos caldos de Vieira que nos receitava a nós os moços, para educar a mão; a segunda são os seus romances{31} e escriptos humoristicos, onde mal ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com fórmas e tours estrangeirados, transparece sempre o goût du terroir, o cunho do portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que de comedia. Na terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella, nos escriptos de polemista a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as palavras tem calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos expressos em orações duras, uma convicção, uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo redondo, sobrio e nobre. A rethorica classica é o molde proprio do classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica (Carta á Academia das Sciencias), onde apparece o homem intimo, sensivel, caridoso e simples, esse homem que nós esboçamos fugitivamente, porque a vida, a educação, o temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao homem estoico; ha uma dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram e vociferam, tem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do artista obtem com a intuição, consegue-o o poeta com a emoção. A Carta á Academia é tão bella como as melhores das poesias intimas de Herculano.{32}
«Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus romances), a litteratura era uma missão e não um dilletantismo. O universo, a historia, a sociedade, não se lhe apresentavam como assumpto de estudos subtis e curiosos, de observações finas ou profundas, de quadros brilhantes, vivos ou commoventes; mas como objecto de affirmações ou negações inspiradas pela convicção estoica. Nos seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu pensamento e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do auctor, ora apaixonada, ora melancholica, quasi sempre triste, raras vezes contente, mas sempre convicta, energica e franca.
«As Poesias e o Eurico revelam-nos o crente na providente liberdade d'um poderoso e justo Deus; a alma rijamente temperada contra o funesto acaso; o coração aberto ás emoções da natureza que se lhe manifesta com o caracter d'uma fatalidade cruel e d'um cego desabrimento. Deus, a Natureza, o Homem, são, n'essas obras, personnagens d'uma tragedia biblica, com a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena bulcões de opacas nuvens cobrindo o azul do ceo.
«Vem depois as obras polemicas, vasta e riquissima collecção que patenteia a omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter d'um philosopho, cujo pensamento em vez de se manifestar em tratados, se exprime em controversias.{33} Profissionalmente, era historiador. A Historia de Portugal e os trabalhos que com ella formam o corpo dos estudos do erudito são a obra mais importante do escriptor e solido fundamento do seu immorredouro nome na historia litteraria portugueza. Reunindo a um vasto e forte saber geral a paciencia do erudito e o escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a pedante seccura do especialismo, e se não constituem, nem podem constituir uma historia nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome que se conservará ao lado do de Guizot, de quem tinha os golpes de vista comprehensivos, e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade de representar vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua alma como um Michelet) as passadas gerações,—avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o trabalho improbo de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos historicos d'um povo que não tivera benidictinos eruditos. Robinson de nova especie, Herculano achou-se como n'um paiz deserto e teve de descobrir os materiaes antes que pudesse pôr mãos á obra.
«Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a Historia de Portugal, é um monumento;{34} entretanto,—devemos dizel-o, se quizermos ser inteiramente justos.—mais de uma cousa lhe falta, para poder ser considerada um typo, e o seu auctor um grande historiador como Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de eruditas discussões; falta-lhe, sobre tudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquelle ponto de vista rigorosamente objectivo, aquella isenção critica, impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos; e sem a qual a historia deixa de o ser.