Por mais que esse sangue honrado
Vos inspire os pondonores
De merecer os louvores
E não querer ser louvado,
Este dia he consagrado
A elogios soberanos:
Sem vir enfeitar enganos
Com mão venal, e fingida,
Em contar a minha vida
Louvarei os vossos annos.
Tecêrão-me em baixo estado
A Fortuna, e a Natureza:
Entre os braços da Pobreza
Fui desde o berço lançado.
Pelas vossas mãos alçado
Quebrei da desgraça o fio:

Se da crua fome, e frio
Livro o Pai, livro os Irmãos,
He obra das vossas mãos,
E faz o vosso elogio.[7]

MOTE.

Olhos de Lize, olhos bellos,
Olhos para mim fataes,
Que hum vosso girar sómente
Me faz temer mil rivaes.

GLOZA.

Da alva Lize os brancos dentes,
O rosto affavel, e brando,
A boca, donde em fallando
Ficamos todos pendentes,
Nos lizos hombros patentes
Soltos os longos cabellos
Não são causa dos desvellos,
Nem das ancias em que vivo:
Vós sois, vós sois o motivo,
Olhos de Lize, olhos bellos.

Vós sois os meus vencedores,
E sois gloria do vencido:
De vós me atira Cupido
Mil farpados passadores.
Se vence o Deus dos Amores,
Vós as armas lhe emprestais.
Que ternos saudosos ais,
Que pranto em vão derramado,
Me não tendes vós custado,
Olhos para mim fataes!
Se o rosto ao Ceo levantado
Alçais as pestanas pretas,
Logo de brilhantes setas
Vejo todo o ar cruzado.
Cupido, que tem jurado
Crua guerra á humana gente,
Das nuas costas pendente
Dura aljava, e passadores,
Fará conquistas menores
Que hum vosso girar sómente.

Quando desses claros lumes
Sahem as chammas brilhantes;
De mil rendidos amantes
Ouço saudosos queixumes.
Não chameis loucos ciumes,
Ó Lize, os que em mim causaes:
Do poder de huns olhos taes
Quem ha que livrar-se possa,
Se a menor perfeição vossa
Me faz temer mil rivaes?

MOTE.

Tu teimas em desprezar-me,
Eu teimo em te idolatrar,
Juntarei teima com teima,
Teimando te hei de abrandar.