GLOZA.

De ser comigo piedosa
Não dás, Marilia, esperanças:
Inda, cruel, não te cansas
De ser esquiva, e teimosa!
Que importa, ó Ninfa formosa,
Vir neste pégo arriscar-me,
De mergulho ao mar lançar-me,
E os livres peixes colher-te;
Se quanto eu teimo em querer-te,
Tu teimas em desprezar-me?

C'os olhos ao Ceo erguidos,
Ou postos nos longos mares,
Por ti encho os vagos ares
De mil saudosos gemidos:
Nos rochedos desabridos,
Que em vão bate o rouco mar,
Devorando o meu pezar,
Já que de ouvi-lo te cansas,
Sem premio, sem esperanças
Eu teimo em te idolatrar.
Teimando, se mal não penso,
Hei de abrandar teus rigores;
Porque assim como em amores,
Tambem em teimas te venço.
Juro pelo Sol intenso,
Que a prumo estas rochas queima,
Que mais do que eu ninguem teima.
São as causas desiguais:
Mas por vêr quem teima mais,
Juntarei teima com teima.

Se alva fonte murmurando
Gasta em torno os duros seixos,
E vai dos annosos freixos
As raizes escarnando:
Se duras rochas quebrando
Vai c'o tempo o bravo mar:
Se bronzes póde cortar
Mordente lima teimosa:
Tambem eu, Ninfa formosa,
Teimando te hei de abrandar.

MOTE.

Não sei que quer a desgraça,
Que atraz de mim corre tanto:
Hei de parar, e mostrar-lhe
Que de ve-la não me espanto.

GLOZA.

Não sei que outro mal profundo
Inda a desgraça me guarda,
Se me tirou em Anarda
O que tem de bom o mundo!
Foi este golpe tão fundo,
Que outro não tem que me faça:
Se em levar-me o gesto, e a graça
De huns olhos, por quem vivia,
Me fez quanto mal podia,
Não sei que quer a desgraça!

Debalde outros gostos pintas,
Amor, para cativar-me:
Já não tornas a enganar-me,
Por mais, e mais que me mintas.
Inda tens as settas tintas,
Inda enxugo inutil pranto:
Ao teu venenoso encanto
Novas victimas procura;
E dá-lhe dessa ventura,
Que atraz de mim corre tanto.
Fizeste, ó desgraça, hum erro
Em vires do Amor valer-te:
Como ha de elle socorrer-te,
Se eu já conheço o seu ferro?
Á sua voz o ouvido cerro:
Custou-me sangue o escapar-lhe:
E para melhor provar-lhe,
Que eu já sou dos seus cortados,
Sinaes inda mal fechados
Hei de parar, e mostrar-lhe.

Tu só me déste hum desgosto,
Outro já não pódes dar-me:
Já agora sempre has de achar-me
A mesma alma, e o mesmo rosto,
Se em ferros por ti for posto,
Verás que ao som delles canto;
Se envolta em sanguineo manto
Me pões a morte diante,
Notarás no meu semblante,
Que de ve-la não me espanto.