GLOZA.

As nodosas carvalheiras,
Que assombrão hermas estradas;
Altas rochas, penduradas
Sobre medonhas ribeiras;
Duras, íngremes ladeiras,
Escuras concavidades;
São as tristes soledades,
A quem meu cansado peito
Conta o mal, que lhe tem feito
Distancias, e saudades.

MOTE.

Cantarei alegres penas,
Que cercão meu coração.

GLOZA.

Que eu cante alegre me ordenas?
Que cruel, que dura Lei!
Porém obedecerei,
Cantarei alegres penas:
Por todo o modo envenenas
A minha infeliz paixão;
Tu déras valor á acção
De eu affectar alegrias,
Se visses as agonias
Que cercão meu coração.

MOTE.

Nada no mundo figura,
Quem não chega a ter amor.

GLOZA.

Deos de Amor, sempre a ventura
De tuas mãos pendente vi:
Tu pódes tudo; sem ti
Nada no mundo figura.
Recolhe da terra dura
Fructo immenso o Lavrador;
Mas occulto dissabor
No fundo da alma lhe diz,
Que não chega a ser feliz
Quem não chega a ter amor.