Se deste potente vinho
Não cerceias as rações,
Temo que nos teus Sermões
Allegues só São Martinho.
Se lhe dás largo caminho
Pelo teu fecundo peito
Seu fatal magico effeito
Deixando-te a tres de fundo,
Te fará ser o segundo
Que diga: sempre me deito.[8]

Carta a Lourenço da Mota, Official da
Secretaria.

O teu fiel Amigo

N. T.

Peço que mates a fome
A este meu povo immenso,
E peço-te, meu Lourenço,
Pelo Santo do teu Nome.
Por hum bom serviço tome
A paga das taes tencinhas.
Pois teve as carnes mesquinhas
Em vivas brazas vermelhas,
Em louvor das suas grelhas
Peço me livres das minhas.
Com esta tenho enviado
Tres cartas, segundo penso,
Ao meu amigo Lourenço:
Nem reposta, nem mandado.
A dôr de que estou tomado
Sim desejo allivialla:
Mas a tua mais me aballa,
E parece mais intensa:
Pois eu sim fico sem Tença;
Porém tu estás sem falla.

Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor
Conde de Villa Verde, andando o A. na
pertenção de ser Official da Secretaria
de Estado.

DECIMA.

Senhor, venho perguntar
Quando ides ficar no Paço:
Para que á força de braço
Lanceis esta náo ao mar.
Sabe montes aplanar
Vossa discreta portia:
E pinta-me a fantasia,
A qual nem sempre me engana,
Que só na Vossa semana
Me ha de chegar o meu dia.

Ao Juiz do Crime de Andaluz, dando-lhe este
parte que estava para casar, e mostrando-lhe
versos, que fizera á Noiva. He o
de que trata o soneto 33, Tom. I. pag. 35.

Manoel, muda o cuidado,
Abafa essa chamma ardente:
Não falla hum são a hum doente;
Falla-te outro exp'rimentado.
Já servi ao Deos do engano,
Fórte com forças alheias.
Passei nas suas cadeias
Apoz hum anno outro anno.
Prometteo-me alto favor;
Mas sabe, pois que começas,
Que o que tive das promessas
Forão lagrimas, e dôr.