Não te deixes enganar
Do rosto brando, e sereno:
Tempéra em riso o veneno;
Afaga para matar.
Com mil modos attractivos
Chama a cega, e incauta gente:
Lança-lhe dura corrente,
E escarnece dos cativos.
Como trata os infelizes,
Que andou outr'ora amimando,
Meu peito to está mostrando
Nesta frescas cicatrizes.
Até em cousas de peta
Quer mostrar o seu rigor:
Faz entrar n'hum prosador
A mania de poeta.

Mas esses laços que trazes,
Dom desse Deos inimigo,
Talvez que sejão castigo
D'outras prizões, que tu fazes.
Fere a muitos tua mão,
Inda que tanto a reprimes,
E vens a pagar teus crimes
Com pena de Talião.

MEMORIAL

A Suas Altezas.

Se os Principes nos são dados
Para geral beneficio,
E se o seu mais digno officio
He ouvir os desgraçados:
Ouví minha desventura,
E consentí que esta vez
Se lastime a vossos pés
Hum queixoso da ventura.
Sahirem humildes ais
De hum peito singelo, e aberto,
He o direito mais certo,
Quando os Juizes são tais.

Fundadas sobre a verdade
As minhas supplicas vão:
Não peço por ambição,
Peço por necessidade.
Em mim o cuidado cae
De Irmãs postas em pobreza:
A piedade, e a natureza
Me fazem Irmão, e Pae.
Olhos em pranto banhados,
Que eu sem dôr não posso ver,
Vos fazem agora ler
Estes versos mal limados.
São tristes Orfãs donzellas,
E merecem suas dôres
Que vós, Augustos Senhores,
Hajais piedade dellas.

Por mais esforços que eu faça
Como hei de dar-lhe favor,
Se o seu triste bemfeitor
Vive na mesma desgraça?
Da miseria as tirareis,
Se eu da miseria sahir:
Sobre muitos vai cahir
O favor que me fazeis.
Vós, ó Augusta Princeza,
Em quem o Ceo quiz juntar
O melhor que pódem dar
A fortuna, a natureza,
Tende dó de seu lamento;
E dai a mão favoravel
A hum sexo respeitavel,
De que vós sois ornamento.

A petição que vos faço
Não he de facil indulto;
Para pouco, fora insulto
Valer-me do Vosso braço.
Não he facil, mas he justa:
E será bem despachada,
Se huma vez apresentada
For por Vós á Irmã Augusta.
Principes, tende piedade:
Ponde a meus queixumes pausa:
Protegei na minha causa
A causa da humanidade.
O que de Tito se diz,
Hum Rei Vosso Avô dizia;
Chamava perdido o dia,
Se não fez alguem feliz.

Motivo de tristes ais
Quaesquer mãos o pódem dar;
Más venturas emendar
Só pertence a mãos Reais.
Dos homens, inda que ingratos,
Ouve Deos os rogos justos:
Vós, ó Principes Augustos,
Sois na terra os seus retratos.
Mas já o tempo opportuno
Apressa as azas escassas,
E não devo ás mais desgraças
Ajuntar a de importuno.
Acabe a triste escriptura,
Digna por tal de piedade:
Eu dei-lhe pranto, e verdade,
Vós podeis dar-lhe ventura.

No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo
Senhor Conde de Villa Verde.