Não venho dourar enganos;
A vida não he louvor;
Pois tambem vivem Tyrannos:
Eu venho, illustre Senhor
Louvar obras, e não annos.
De homem commum não se exime
Quem não tem virtudes claras:
He pouco fugir do crime:
Consagrão-se as almas raras
A trabalho mais sublime;
A trabalho heroico: e creio
Pelo provado aforismo,
Que em sãos Filosofos leio,
Que o verdadeiro heroismo
He fazer o bem alheio.

Taes trabalhos honra dão
Á digna mão que os procura:
Não amo Heróes da ambição:
Buscão a sua ventura;
Vós buscais a da Nação.
Serem por vós levantados
Os talentos esquecidos;
Do triste os ais desprezados
Serem aos Reaes Ouvidos
Pelas vossas mãos levados;
De quem a vós se acolheo,
Remediar o queixume;
Ter como proprio o mal seu;
He este o vosso costume,
E o genio que o Ceo vos deo.
E o Throno aos Povos propicio,
Que vigia em seu favor,
Fez-lhe o geral beneficio
De mandar, que em vós, Senhor,
O que he genio fosse Officio.

Partio Officios pezados
Com quem os servisse bem:
São projectos acertados:
Quem do Throno o sangue tem,
Tenha tambem os cuidados.
Dai aos gratos Lusitanos
Longo tempo Mão segura
Contra injustiças, e enganos;
E seja a sua ventura
O louvor dos vossos Annos.
Mas, Senhor, moços Poetas
Vinguem meus esforços vãos:
Musas zombão de Jarretas:
Pedem-me as tremulas mãos,
Mais do que Lyra, muletas.
Fogosos Vates emprehendão
Altos vôos neste dia:
Musas com Musas contendão:
Sáião Odes á porfia;
E queira Deos que se entendão.

QUINTILHAS

Em louvor de huma Senhora.

Lyra minha, rouca lyra,
Hoje afinada consente,
Que a tremula mão te fira:
Cante huma só vez contente
Quem por costume suspira.
Louvemos Anarda bella;
Eu vejo aos astros subir
Meus versos em honra della,
E possa quem os ouvir
Adora-la antes de vê-la.
Já lédo as vozes desato:
Ouve, ó Nynfa, os teus louvores:
Não pertendo ser-te grato
Traçando com vivas cores
Teu angelico retrato.

Permitte, Anarda piedosa,
Que se farte o meu desejo
N'outra empreza mais gloriosa;
Que o menor dom que em ti vejo,
He o dom de ser formosa.
Rubra boca, os olhos bellos,
Que brandamente movidos,
São de Amor agudos zelos;
Sobre alvo collo esparzídos
Louros ondados cabellos;
Braço airoso, a mão de neve;
Proporcionada cintura;
Eis a tua copia breve:
Porém vôa a formosura
Nas azas do tempo leve.
Outros bens mais duradouros
Não são á tua alma esquivos,
Bens que nos annos vindouros
Valem mais que huns olhos vivos,
Que huns soltos cabellos louros.

A destruir a belleza
A curva velhice corre:
Nada conserva firmeza;
Só a virtude não morre:
Vence as leis da Natureza.
Tu, que prezas a verdade;
Que tratas falsos sujeitos
Só com a côr de amizade,
E para os sinceros peitos
Mostras ter sinceridade;
Tu, que os enganos deslizas;
Que sabes vencer desgostos;
Que a lisonja ufana pizas;
Que não vês sómente os rostos;
Que até corações divizas;
Tu, que da seria prudencia
Segues os dictames puros;
Que tens amado a innocencia,
E nos conselhos maduros
Mostras de idade experiencia;

Teu nome eterno ha de ser
Estampado entre as estrellas;
Has de as mais Nynfas vencer,
Que sómente em serem bellas
Fundão todo o seu poder.
Amão a fofa vaidade;
Dos homens a seu sabor
Prendem a solta vontade:
Trazem nos olhos amor,
No coração falsidade.
Muitas fingem desprezar
Finezas de amante rude;
Fingem os sabios amar:
Não o fazem por virtude,
Querem talentos mostrar.
De que serve huma alma pura,
Se os pezados membros cobre
Rota humilde vestidura?
Nada val hum peito nobre
N'huma grosseira figura.

Corpo esbelto, onde ajustado
Brilha, cheio de ouro immenso,
Curto fraque afrancezado;
Cheiroso, candido lenço;
O cabello apolvilhado;
Jocosas palavras ôcas;
Estes os dons relevantes,
Que deixão de vencer poucas
Das que fingem ser amantes,
E não passão de ser loucas.
Tu tens outro entendimento:
És sempre igual: não te vales
Das côres do fingimento:
Quer séria, quer rindo falles,
Não fundas torres no vento.
Rís da baixa adulação,
Mal que os teus ouvidos toca
A contrafeita expressão:
Conheces na falsa boca
O enganoso coração.