Ver sobre molle tapete,
Curvando as pernas, e os braços,
Peralta de alto topete,
Com destros miudos passos,
Dançar Francez minuete;
Vê-lo nutrindo esperanças
Entre agradaveis parceiras,
Fazer rapidas mudanças,
Torcendo as mãos nas ligeiras
Buliçosas contradanças;
Fervente rebeca ouvir,
Que infunde vivos prazeres,
Jámais te faz distrahir;
Pois antes dos Sabios queres
Sabios conceitos ouvir.
Só te vejo attenta em quanto
Ouves palavras discretas;
As Musas estimas tanto,
Que até dos tristes Poetas
Te commove o triste pranto.

Conheces seu duro mal;
Que sempre tributão fé
A coração desleal:
Que por isso em todos he
A tristeza natural.
Que ás Nynfas endurecidas
Lhes não causão terno effeito;
Que triunfão das fingidas,
Guardando dentro do peito
Inda frescas as feridas.
Porém já que ouzei fallar
De Amor nas sanguineas reixas,
Vou a lyra pendurar:
Não quero com minhas queixas
Teus louvores misturar.
Tu dirás que não tens parte
No meu mal cruento, e fero;
Que vou tristezas lembrar-te;
Dirás que affligir-te quero,
Quando desejo louvar-te.

Não te deves admirar:
Sei que em vão me estou queixando;
Mas quem sente o seu pezar,
Se principia cantando,
Sempre acaba a suspirar.

QUIXOTADA.

Espicaça esse animal,
Companheiro Sancho Pança,
Entremos em Portugal,
E vamos molhar a lança
A pró do triste Pombal.
Poetas principiantes,
Já estou em circo raso:
Tambem Apollo he Cervantes,
Tambem cria no Parnaso
Seus cavalleiros andantes.
Não vos chamo, ó sujo rancho,
Que até os versos errais;
Em tal sangue as mãos não mancho:
Para vós, e outros que taes
Sobeja a espada do Sancho.

Sobre vós carrego a mão,
Sobre vós, ó folhas velhas,
Que dais n'hum homem no chão,
Sem vos lembrar, que entre ovelhas
He fraqueza ser leão.
Essa boca enganadora,
Que he hoje da maldição,
Mil vezes se poz outra hora
Sobre a praguejada mão,
E lhe chamou bemfeitora.
Pois já que vós sois assim,
Povo revoltoso, e ingrato,
Hoje castigar-vos vim:
Ireis pelo pó do gato,
Nem esp'reis quartel em mim.
Santo Téjo, o curso enfreia,
E montando rochas duras
Torna atraz a clara veia:
Conta novas aventuras
Á formosa Dulcineia.

Nova guerra o mundo veja,
Guerra em que pouco se arrisca:
Serão armas na peleja,
Provado fuzil, e isca,
Secca, espinhosa carqueja.
Irmão Sancho, põe-te a pé,
Põe essas Rimas a prumo,
Principio á obra se dê,
Tolde o ar o negro fumo
Deste novo Auto da Fé.
Queima essas Satyras frias,
Faltas de sizo, e conselho:
Queima prosas, e poesias:
Acabe o cansado velho
Em paz os seus tristes dias.
Porém poupa sempre alguma
Das raras que tem sabor:
Das outras nem deixes huma,
Dessas que tudo he rancor,
E poesia nenhuma.

Em tanto as armas pendura:
Mas se houver desassizados,
Que queirão guerra mais dura,
Da minha lança cortados
Descerão á sepultura.
Já nuvens de fumo vejo:
Já chamma brilhante o arreda:
Já se farta o meu desejo;
Já da viva lavareda
Dá o clarão sobre o Tejo.
Essas cinzas denegridas,
Que ao velho poupão mil magoas,
Leve-as o Téjo envolvidas,
Fiquem no fundo das aguas
Para sempre submergidas.
Vês, Sancho, do nome meu
Como vôa a clara fama?
Nem viva alma appareceo
A apagar a voraz chamma,
Ninguem, ninguem se atreveo!

Vês como ajuda o destino.
A hum bom cavalleiro andante?
Não precizei de aço fino,
Nem de pés de Rocinante,
Nem de elmo de Mambrino.
Ó tu que alçaste a viseira
Forcejando os nervos velhos,
E para ver a fogueira
Limpaste os olhos vermelhos
Na felpuda cabelleira:
Abaixa a proa huma vez,
Chega a Dulcinea bella,
E dize posto a seus pés:
«Formosissima Donzella,
Eu sou hum triste Marquez,
«Que fugindo a hum povo inteiro,
A quem mettêra em furor
Minha privança, e dinheiro,
Vim achar mantenedor
Em teu nobre cavalleiro.

«Disse este povo malvado,
Que eu tinha o reino extorquido;
Que era gatuno afamado,
E que em jogos de partido
Tinha com todos levado;
«Que no Tabaco levava
Hum quinhão avantajado;
Que o Sabão não me escapava;
E que sem ser Deputado
Nas Companhias entrava.
«Das minhas Leis murmuravão:
E os seus pequenos juizos
Tão pouco o ponto tocavão,
Que sempre me erão precisos
Assentos que as declaravão.
«Té na lingoa sem motivo
Dérão criticos revezes:
Fiz nella estudo excessivo,
Bebi nos bons Portuguezes
Monopolio, e respectivo.